Compilação II

Há um ano e meio:

Mudar de vida

(Publicado no jornal Meia Hora, 20/3/2008)

A pior maneira de olhar para a crise do PSD é pela perspectiva do “caciquismo”. Como se, de repente, o PSD se tivesse transformado numa enorme coutada de caciques, onde outrora reinava sabe-se lá que impoluta elite exclusivamente dedicada ao bem público. Não estamos aqui entre virgens imaculadas e, por isso, podemos falar claro: o caciquismo faz parte da vida de qualquer partido. Os partidos não são organizações de cruzados querendo impor à sociedade a pureza ideológica dos seus grandes princípios. Eles são também organizações de interesses, mais ou menos declarados, mais ou menos legítimos e mais ou menos benignos. Os caciques são mesmo essenciais ao funcionamento dos partidos: sem eles, a massa crítica de votos para ganhar eleições poderia nunca se formar. Todos os partidos os têm: o PS, o CDS, o PCP e mesmo aqueles irritantes puros do “Bloco” (um dos quais até se encontra a braços com a justiça em Salvaterra de Magos). Todos os países os têm: da América à Itália, passando pela França ou a Suécia.

O problema do PSD é a falta de uma ideia, de um plano, de um projecto (o que se lhe quiser chamar) eficaz para tomar o poder e exercê-lo de forma alternativa ao corrente governo. As redes de interesses a que se dá o nome de caciquismo são os partidos reduzidos à sua estrita dimensão funcional, uma espécie de esqueleto sem carne ideológica. É natural que essas redes não tenham aquela ideia ou plano. Mas alguém viu algum da parte daqueles membros do partido que o acusam de estar devolvido aos caciques? Dão-se alvíssaras. Será talvez altura de começar a suspeitar que não têm mesmo nenhum e que entre si e os “caciques” afinal não há qualquer diferença neste aspecto.

Perante o divórcio da “elite” com as “bases”, há quem comece já a sugerir o aparecimento de um novo partido da direita “respeitável” (Vasco Pulido Valente, por exemplo). Só que a direita “respeitável” sem as bases não é ninguém (e as bases sem os “respeitáveis” também não). O segredo do PSD sempre foi até agora o de ser um partido genuinamente popular enquadrado por uma elite social, económica e política que lhe conferia orientação. Os dois têm de encontrar maneira de voltar a entender-se. Ou então começar a pensar em mudar de vida.

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