O passado e o presente

(Publicado no jornal Metro, 17/9/2009)

Pela primeira vez desde há 22 anos (se exceptuarmos as quase maiorias absolutas de Guterres), Portugal arrisca-se a ficar sem maioria absoluta no parlamento e sem uma coligação funcional de dois partidos. Tem-se visto bastante gente desvalorizar o facto. Mesmo Manuela Ferreira Leite, no debate com Sócrates, considerou que “não era um drama” o PSD governar em minoria. Mas teve logo de acrescentar: “desde que o PS revele a mesma responsabilidade do PSD nos governos de Guterres”. Pois. Esse é o problema: a tentação de não “ser responsável”. Sobretudo da parte do PS, que (ao contrário) gosta de puxar dos pergaminhos radicais na oposição e dos da responsabilidade no poder.

Vale a pena lembrar os tempos anteriores a 1987: os governos duravam entre meses e meia legislatura; experimentou-se de tudo: governos minoritários de esquerda e de direita, alianças de direita, alianças da esquerda com a direita, governos de iniciativa presidencial, bloco central… Nada funcionou e tudo contribuiu para um sério descrédito da democracia. Já pouca gente se lembra, mas esses eram os tempos em que muita gente duvidava da sua viabilidade e pedia ao Presidente (à época, Eanes) para protagonizar uma mudança. Ele não se furtou e criou um efémero partido que efectivamente mudou a política portuguesa, o PRD, que no fundo esteve na origem das maiorias absolutas de Cavaco.

 Dir-se-á que os tempos são diferentes. Sim, sobretudo pelo lado da esquerda, que já não tem um modelo alternativo à democracia liberal para oferecer. Mas por outro lado nota-se por vezes um certo cansaço com o regime: a corrupção, as negociatas, os escândalos, a justiça politizada, o “são sempre os mesmos”. O Presidente aparece outra vez como reserva de credibilidade e ouvem-se rumores pedindo-lhe mais protagonismo. Digam o que disserem, um parlamento fragmentado é mais problemático e apela ao intervencionismo presidencial. Continua a ser preferível uma maioria absoluta ou uma coligação sólida.

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