Estragadões

(Publicado no jornal Metro, 10/9/2009)

Finalmente, os ministros das finanças do G-20 passaram, no último sábado, do velho número de circo em que simultaneamente acusam e pedem mais supervisão para falar de coisas mais sérias. De facto, o que não faltou nesta crise financeira foi supervisão, tanto privada como pública: os mercados financeiros estão cheios de agências certificadoras privadas, por cima das quais ainda operam as públicas. Nenhum outro mercado tem tanta supervisão. No entanto, o supervisor pouco pode fazer, mesmo achando a situação arriscada, se as regras existentes não o constrangem a tomar certas acções.

Como bem notou o G-20 financeiro, o problema está nos rácios de solvabilidade dos bancos. Na essência, os bancos podem multiplicar o crédito e endividar-se a partir de uma base de capital ínfima, algo que sendo inerente à actividade se agravou na última década. Eis o que cria um modelo de negócio de falência iminente. Não admira que a única forma de lhes voltar a conferir credibilidade seja a que se viu: a garantia de salvação pelo Estado. O G-20 também considerou importante a questão dos bónus no pagamento aos dirigentes. Mas ela é sobretudo moral: veja-se como, nas últimas semanas, com o regresso de bons resultados, se voltaram a pagar bónus fabulosos, pouco importando que a recuperação bancária se tenha devido sobretudo às injecções de liquidez e capital com os impostos de todos. De facto, se o Estado vai funcionar como a garantia destas instituições, os bónus obscenos não têm razão de existir.

O problema, claro, vai ser passar à prática. Mas o G-20 e os governos não têm muito porque se queixar: foram eles que inundaram o mercado com dinheiro para salvar instituições falidas pouco pedindo em troca. Sem se adoptarem as ideias propostas no G-20 financeiro, as condições institucionais para uma crise idêntica à que vivemos (ou pior) permanecem. Mas os que as deveriam adoptar não o querem fazer. Porquê? Porque gostaram da experiência: fizeram muitos estragos, mas o papá pagou.

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