É sempre em frente

(Publicado no jornal Meia Hora, 16/7/2009)

Toda a gente conhece o famoso dito de Churchill segundo o qual a democracia é o pior de todos os sistemas excepto todos os outros. A frase é tão bem achada que poucas pessoas, pensando bem, não estarão de acordo com ela. Mas talvez a ideia não se estenda a todos os aspectos da vida democrática. Aos cartazes políticos, por exemplo. Quando comparamos os nossos cartazes com os de regimes como a Alemanha nazi, a URSS ou até o “nosso” Estado Novo, tantas vezes da autoria de alguns dos melhores artistas gráficos da história, constatamos a nossa pouca sorte estética.

Aqui por onde estou passando férias, a campanha para as autárquicas parece já estar em curso. Ruas e estradas estão inundadas de cartazes com fotografias de indivíduos que mais parecem apropriadas a vendedores da mediadora imobiliária Remax. A imaginação dos slogans é estonteante. Um candidato afirma que Santo Estêvão vai “P’rá frente”. Exactamente como é que esta encantadora aldeia de 300 habitantes (talvez exagere), com dois cafés, uma mercearia, uma caixa agrícola e uma igreja (e respectivo adro) vai “P’rá frente” é algo que se ignora. Talvez ir “P’rá Frente” signifique construir o enésimo condomínio de férias “entre a serra e o mar”. Caso em que mais valia que fosse “P’ra Trás”. Logo abaixo, outro candidato promete que “Tavira segue em Frente”. Se Tavira seguir em frente na direcção da qual também Santo Estêvão de lá vem, arriscamo-nos a uma colisão, sendo certamente a melhor maneira de destruir tanto Tavira quanto Santo Estêvão (já seriamente ameaçados com as inúmeras ideias de os levar para a “frente”). Claro que nenhum destes candidatos está sozinho, uma vez que partilham o espaço público com o grande candidato nacional José Sócrates, o qual, também ele diz que quer “Avançar Portugal”. Talvez seja isto a experiência do movimento perpétuo.

A alguns quilómetros de distância, Nuno Marques, qual Professor Karamba, afirma ter “Soluções de verdade para Lagos”. E noutro ponto, Macário Correia garante que quer “refazer uma capital”. Mas o adversário directo, o candidato José Apolinário, vai mais longe, ao afirmar, numa arrancada retórica notável, que “Faro é Faro”. Repare-se na depuração do estilo.

 Tanta preocupação com a “qualidade da nossa democracia” e ninguém se preocupa com a qualidade da sua propaganda. Mas continuaremos a querer mudar este estado de coisas, já que “nunca baixamos os braços”, mesmo que isso comece a incomodar as outras pessoas. É altura de desejar boas férias.

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