Que fazer com os bancos?

(Publicado no jornal Meia Hora, 2/7/2009)

Foi certamente um espectáculo chocante, quando a actual crise financeira começou, ver banqueiros habitualmente tão arrogantes na denúncia de quem pede ajuda ao Estado por isto e por aquilo, implorarem como se fossem crianças que agora o Estado viesse em sua salvação. Todos aqueles que durante anos, mesmo em circunstâncias difíceis e sem as mesmas remunerações, defenderam que os mecanismos de mercado eram a melhor maneira de organizar a economia, sentiram-se defraudados. Afinal, descobriram que aquele sector que nos últimos anos se apresentava como o epítome do mercado não passava de uma fraude enquanto actividade privada. O contrato implícito nas nossas sociedades é que empresários e gestores têm uma remuneração mais elevada porque correm mais riscos. Se corre tudo bem, corre tudo bem. Se corre mal, segue-se a falência. O que eles demonstraram é que (ao contrário de outras actividades) apenas queriam cumprir a parte boa do contrato.

E os governos corresponderam, com enormes programas públicos. Implicitamente estatuiu-se que muitos bancos eram “demasiado grandes para falir” e que o dinheiro dos contribuintes presentes e futuros (através da dívida pública) servia para os suportar. Nunca se assistiu nos últimos 70 anos a semelhante progresso da socialização da economia. Os bancos criaram a crise e, depois, para se salvarem, reduziram de forma astronómica a dimensão da economia de mercado. Por isso, não podem ser consideradas instituições que promovem a liberdade económica. Isto traz um problema evidente: se não estão dispostos a falir então é porque são já instituições públicas sem o nome e estão fora das regras dos mercados. O que traz ainda um outro problema (ou melhor, um dilema) político: ou é definitivamente assumido que estes bancos são públicos, acabando a comédia dos últimos anos, ou eles são reformados de forma a poderem voltar a ser vistos como agentes privados.

O que esteve na origem da actual crise foi a expansão do crédito a partir do nada. Ou quase nada: uma base monetária e de capital cada vez menor. Se não queremos transformar os bancos em apêndices do Estado, então não os podemos deixar seguir um modelo de negócio que não os responsabiliza, cria instabilidade e põe em perigo a economia de mercado. Para isso só há uma solução: impor-lhes rácios de capital que efectivamente protejam os clientes e a economia, e impedi-los de se envolverem em programas de crescimento do crédito que a prazo deixam a sociedade no seu todo falida.

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