Rumo à derrota?

(Publicado no jornal Meia Hora, 25/6/2009)

Tem sido o grande motivo de conversa dos últimos dias: o novo “estilo” do primeiro-ministro, inaugurado na já célebre entrevista a Ana Lourenço. Como consequência evidente da derrota nas Eleições Europeias, o primeiro-ministro trocou o estilo histérico e acossado do “animal feroz”, típico até agora, por outro mais manso, delicodoce e sofrido. Toda a gente notou a mudança, mas levou-o sobretudo para a galhofa. Uma alteração tão brusca e tão estudada deu a muita gente vontade de rir.

No entanto, o fenómeno talvez mereça outro tipo de atenção. Como tentei dizer aqui há uma semana (e não fui o único), o PS foi colocado, depois da derrota das Europeias, numa terra de ninguém: não pode virar à esquerda sem alienar eleitorado que preferirá o PSD; não pode virar à direita sem alienar eleitorado que preferirá o BE e a CDU. Isto significa que ao PS só resta um caminho: “manter o rumo”, como o próprio primeiro-ministro lhe chamou. Claro que “manter o rumo” coloca um problema: o “rumo” foi derrotado nas Europeias; simplesmente mantê-lo significaria com forte dose de probabilidade perder as Legislativas. Restava portanto “manter o rumo”, mas com uma nova embalagem. Sendo que há algo de verdadeiro na recém-adquirida humildade: o PS ouviu mesmo a voz do eleitorado e quer mesmo adequar-se ao seu estado de espírito actual.

“Manter o rumo” faz ainda sentido porque o comportamento do PSD também não ajuda. De facto, praticamente sem fazer nada o PSD conseguiu ganhar umas eleições. O que até cria dificuldades ao próprio PSD: se não fizeram nada até agora e ganharam, então o que fazer? A sua atitude zen tem uma vantagem, mas só temporária: se não se define, também não deixa o PS definir-se. E para o PS, enquanto não for possível saber onde atacar o PSD, o melhor é mesmo “manter o rumo”, embora com uma dose acrescida de simpatia. Acalmam-se as coisas por agora e, depois, quando a pré-campanha e a campanha começarem, a agressividade pode regressar.

Para além disso, “manter o rumo” pode revelar-se ainda suficiente para ganhar (embora muito provavelmente sem maioria absoluta). Tudo dependerá da capacidade do PSD para se afirmar como alternativa credível. Beneficiar do descontentamento com o PS já foi bom e deu para ganhar as Europeias. Agora será preciso um pouco mais para ter êxito nas Legislativas. E não sei se basta insistir muito na questão do TGV, mesmo quando apoiada no parecer de um conjunto de importantes economistas “de vários quadrantes políticos”.

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