Gostar de Obama

(Publicado no jornal Meia Hora, 9/7/2009)

Muita gente me pergunta: porque não gostas do Obama? Presumo que os artigos críticos que por aqui vou escrevendo choquem, sobretudo pelo carácter solitário do exercício. Respondo que não gosto nem desgosto. Simplesmente acho errada a abordagem verbal “obamística” no que toca à maior parte dos problemas da América e do mundo. Essa abordagem pode ser resumida na expressão usada por Joe Biden a propósito das relações com a Rússia: carregar no botão “reset”, ou seja, começar tudo de novo. Eis o problema: não é possível começar tudo de novo. A América, o mundo, a presença da América no mundo têm um lastro histórico que não se mudam estalando os dedos. E todas elas têm muito de bom e de mau, e bom e mau vão continuar a existir com e para além de Obama.

A grande vaga de popularidade de Obama dependeu de dois elementos principais. Por um lado, a vontade (necessidade?) de grande parte da esquerda em reconciliar-se com a América. Ou melhor, a vontade em encontrar o seu lugar no seio das democracias liberais ocidentais (de que a América é o actual exemplo supremo), depois da perda de esperança em diversos modelos alternativos. Como a esquerda sempre gosta de fazer, passou a apresentar-se como proprietária da democracia liberal, agora transformada na sua “utopia”. Isto é, depois de décadas a criticá-la, adoptou-a como coqueluche e propriedade privada. O outro elemento foi uma direita ansiosa por reciclar-se do fracasso de imagem da Presidência de Bush. Note-se que o fracasso foi sobretudo de imagem, não necessariamente de políticas.

Ora, a verdade sobre a política reset é que não existe ou então, onde foi tentada, não tem tido grandes resultados. Não existe na política económica, onde a tendência para resolver a crise despejando dinheiro continua. Se alguma novidade há é a elevação desta técnica a níveis estratosféricos. Não existe no Iraque, onde Obama segue o calendário de Bush. Não existe no Afeganistão, onde Obama adoptou como sua esta guerra de Bush. Não existe na política de detenção de suspeitos de terrorismo (mais conhecida por “Guantánamo”), onde tudo continua essencialmente na mesma (apesar de uns toques cosméticos). Foi tentada no Irão, com um princípio de reconciliação, mas não correu bem: tudo acabou num imbróglio à conta da rebelião contra o regime. Está a ser tentada na Palestina (embora na verdade recuperando políticas anteriores: Bush pai, Clinton…), ignorando-se o resultado. Quase nada começou de novo. Quase tudo acabará na mesma?

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