Vitórias

(Publicado no jornal Meia Hora, 18/6/2009)

É a beleza da democracia: as pessoas votam e baralham e voltam a dar. Mas é uma lição que tanto serve para as eleições europeias que acabaram de ter lugar como para as legislativas que hão-de vir: as pessoas vão voltar a votar e, por conseguinte, podem outra vez baralhar e voltar a dar.

O grande facto das eleições europeias é a dimensão da derrota do PS. São menos 20% de votos. Claro que não estava em causa a governação e o voto pôde ser mais descomprometido. Mas os números são demasiado volumosos. Alguns votos regressarão, até porque a reconstituição da direita assustará o suficiente para, nas legislativas, haver voto útil no PS. Mas também é de crer que muitos não voltarão. Certas políticas do PS, para conquistarem o centro e a direita, fizeram-se contra votantes tradicionais do partido. O exemplo mais óbvio é o dos professores. Muitos deles são seus tradicionais votantes. Se a eles juntarmos as respectivas famílias, temos centenas de milhar de votos perdidos. Se a isto juntarmos ainda outras centenas de milhar de funcionários públicos ameaçados pelos planos de reforma da administração, o quadro é negro. O PS ficou numa terra de ninguém: virar à esquerda significa perder eleitorado à direita; persistir no “centrismo” significa perder o de esquerda. Mesmo que algo se recupere entretanto, não é de crer que seja a maioria absoluta.

Claro que muito dependerá do PSD. Se o PSD conseguir afirmar-se como força efectivamente alternativa, o voto de centro e direita deslocar-se-á para lá. Aquilo que o PS perderá por este lado pode, porém, recuperar pelo outro: se a esquerda se assustar o suficiente, deslocar-se-á do BE e da CDU para o PS. Portanto, a chave está no PSD. Nesta altura, o entusiasmo das hostes é enorme. Mas duas coisas convidam à cautela: uma, a vitória não foi muito grande; a outra, o PSD ganhou também por apresentar uma cara nova e interessante e não as estafadas e cansativas (de tanto implicarem umas com as outras) figuras tradicionais. Será capaz de o continuar a fazer?

A situação está tão indeterminada que nos arriscamos a não ter maioria funcional nas legislativas. Muita gente se apressou a decretar o fim do Bloco Central com o resultado das europeias. Pois eu, a continuar a indeterminação, vejo o contrário: o PS e o PSD juntos poderiam aparecer como a maioria mais clara. O Presidente da República não se importaria e a gravidade da crise daria um pretexto excelente. Não é o único cenário possível, mas ninguém se surpreenda se acabarmos nele.

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