O fim da crise?

(Publicado no jornal Meia Hora, 14/5/2009)

Começam a ouvir-se vozes esperançosas sobre o fim da crise económica. Há quem, cautelosamente, aponte para uma hipotética “luz ao fundo do túnel”. Mas também há quem não hesite em ver a crise ultrapassada: estaríamos agora apenas a lidar com a cauda do furacão; tratar-se-ia só de esperar mais uns meses.

Compreende-se a ânsia em ver a crise passada (quem não o quer?), mas é sempre desaconselhável confundir desejos com realidades. Em que se baseiam os prognósticos favoráveis? Sobretudo em três indicadores: o regresso dos bancos americanos aos resultados positivos, algumas semanas seguidas de boas sessões nas bolsas e, finalmente, a aparente estabilização da queda do preço das casas nos EUA. Mas importa ver como estes resultados foram possíveis. Neste momento, o sistema financeiro é o sector mais subsidiado da economia. Os subsídios vão desde o ostensivo ao subtil. Dentro do ostensivo temos as injecções de fundos públicos, as garantias do Estado e o abaixamento das taxas de juro de referência (0% nos EUA, 1% na UE). Mais subtil é a assunção não declarada pelos bancos centrais da função de “banco tóxico” ou “banco mau”: de facto, tanto o Fed quanto o BCE estão já a aceitar títulos hipotecários (onde se situam os activos ditos “tóxicos”) em troca de injecções de liquidez, algo que está muito longe da prudência e das suas funções normais. Ainda mais subtil foi a alteração das regras contabilísticas dos bancos americanos, que deixaram de estar sujeitos ao agora infame princípio “mark-to-market” (valor corrente no mercado) para poderem passar a registar activos de acordo com um preço hipotético, supostamente baseado no seu valor de médio ou longo prazo: também assim se espera que os activos tóxicos desapareçam apenas pelo efeito mágico de se lhes atribuir um valor fantasioso.

Mas o sistema financeiro não pode continuar permanentemente sob este regime de cuidados intensivos. A esperança parece ser que, com o tempo, os ditos “activos tóxicos” sejam varridos para debaixo do tapete ou comecem a ter retorno. Mas as dificuldades de pagamento e a ameaça de insolvência regressarão logo que os juros subam e as injecções parem. Só há duas soluções para tudo isto: ou uma inflação substancial que limpe as dívidas, ou a insolvência de quem é insolvente. Cada uma tem os seus custos, mas ainda não os sentimos. Isto é, uma parte grande da tempestade deverá estar ainda por passar. Ou me engano muito, ou os anúncios da morte da crise podem ter sido manifestamente exagerados.

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