Uma série de desgraças

(Publicado no jornal Meia Hora, 7/5/2009)

É já um ritual da vida política portuguesa: de vez em quando, alguém aventa a hipótese de um Bloco Central; imediatamente, seguem-se inúmeros exercícios de execração da coisa. Desta vez, foi Manuela Ferreira Leite, embora em linguagem cifrada. E, certo como a morte e os impostos, logo veio o concurso opinativo a demolir a ideia. Mas, para além da óbvia ingenuidade de Leite (a última pessoa a dever falar sobre o assunto), será o Bloco Central uma coisa assim tão horrível se comparado com as alternativas?

A atitude dos portugueses perante as soluções políticas assemelha-se à daquelas pessoas para quem tudo o que lhes acontece é o pior do mundo: uma unha encravada, uma nódoa na camisa, a falta de rede no telemóvel… Maioria absoluta? Horror! É o “absolutismo” no poder. Governos minoritários? É a tragédia da “ingovernabilidade”. Alianças? Não são “sólidas”; também é a ingovernabilidade. O Bloco Central? É o “pântano do Centrão”. Tudo isto tem a sua parte de verdade. Mas trinta e cinco anos de democracia deviam já ter-nos habituado a encarar cada uma destas soluções como soluções imperfeitas e relativamente às quais, sobretudo, não se pode fazer nada.

Porquê o horror ao Bloco Central? Vejamos as alternativas. Uma vitótia do PSD parece agora impossível. Trata-se então de saber como vai o PS governar. Sozinho, com maioria absoluta, será a continuação do que existe. Não tem sido grande coisa, mas verdade se diga que é estável. Sozinho, com maioria relativa, será sempre um equilíbrio instável, correndo-se sérios riscos de não chegar ao fim. Coligado com o BE, será também instável: o BE hesitará sempre entre a responsabilidade do poder e o protesto; no final, talvez resultasse a entrada de alguns membros do BE no PS, mas ao preço de se quebrar a aliança. Coligado com o CDS, será também receita para a instabilidade, para além da natureza ainda mais contra-natura do que o Bloco Central. Coligado com o PCP será impossível, porque o PCP nunca aceitará, pois sabe que seria o seu fim. Resta o Bloco Central. É horrível? É. Mas, socorrendo-me de Lemony Snicket, nesta série de desgraças nem sequer fica muito mal. Na verdade, até talvez seja a melhor maneira de neutralizar o maior factor de instabilidade no sistema político português: as sedentas clientelas de cada um dos dois grandes partidos. O Bloco Central é a pior solução excepto todas as outras. E cada uma das outras é a pior excepto as restantes (incluindo o Bloco Central, naturalmente).

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