Torturas

(Publicado no jornal Meia Hora, 30/4/2009)

Passam agora 100 dias sobre o inicio da presidência Obama. Nos EUA, de onde regressei ontem, a grande discussão é saber se os métodos de interrogatório praticados em suspeitos de terrorismo nos últimos anos são ou não tortura. Como de costume, fora dos EUA a discussão vai assumir um tom de moralidade abstracta, cujo propósito é continuar a condenar a administração Bush. Nos EUA também. Mas estando lá percebe-se melhor a dimensão interna do debate.

Convém começar por esclarecer uma coisa. Chamar tortura àquilo que foi praticado pela CIA em cerca de uma dúzia de suspeitos, dentro dos quais apenas uma proporção ínfima foi sujeita às técnicas mais violentas, é ofensivo para inúmeros países por esse mundo fora que praticam métodos de interrogatório infinitamente mais brutais de forma descomplexada (tortura propriamente dita, digamos). O que os memorandos agora tornados públicos mostram é uma preocupação em tipificar os tipos de interrogatório e as circunstâncias em que eles seriam legítimos. Até se pode não gostar da ideia, mas daqui a defini-los como tortura será talvez uma perigosa banalização do termo. Também convém perceber que, em termos deste mesmo tipo de moralidade, a administração Obama já não é virgem. Afinal, o presidente autorizou aviões não pilotados a bombardear o Paquistão, em acções que causaram a morte de vários civis (alguns crianças). Foi também o presidente que pessoalmente autorizou os marines a atirarem a matar (matando mesmo) sobre os piratas da Somália. As duas coisas não são separáveis: quanto mais demonizada for a administração Bush mais facilmente se adoptam medidas de extrema brutalidade. Os maus eram os outros; tudo o que nos fazemos é pelo bem da humanidade. Não deixa de espantar aquilo que Obama consegue fazer sem se ouvir uma única voz critica: salvar milionários, bombardear civis, matar piratas, achar que o austríaco é uma língua…

Na verdade, nada na discussão é sobre tortura ou moralidade, mas sobre estratégia politica. Passaram 100 dias, mas muitos mais hão-de vir e os inúmeros problemas em mão teimam em não se resolver com facilidade. É necessário, por isso, continuar a lembrar de quem é a culpa: do perverso idiota anterior. Nos próximos tempos, a impopularidade de Bush vai continuar a render. Até ao dia em que o filão se esgotar. Aí logo se verá qual o tema salvador. Talvez até seja proteger outra vez os EUA de ataques exteriores. Não deixaria de ser interessante e sobretudo irónico.

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