O mundo segundo Obama

(Publicado no jornal Meia Hora, 16/4/2009)

Nunca houve um Presidente americano tão pouco escrutinado pela imprensa e pela opinião pública quanto Obama. O unanimismo acéfalo não é apenas triste, é também perigoso: protegido de críticas, Obama conseguiu produzir um orçamento e um plano de recuperação bancária desastrosos; e ao mesmo tempo que o enamoramento continua, ninguém parece preocupado com o foguetão da Coreia do Norte, com o plano de rearmamento da Rússia ou a proximidade da bomba nuclear iraniana.

Claro que muitos destes problemas vêm de trás e que a administração anterior nem sequer lidou sempre bem com eles. Mas também convém admitir que alguma da incapacidade dessa administração resultou da mais completa falta de solidariedade para com ela: era o tempo em que tudo o que Bush fazia, desde apertar os sapatos de manhã até dialogar com Putin, era resultado da sua profunda estupidez. E também convém perceber que grande parte do que se passa é já resultado da acção da corrente administração. A administração Obama parece actuar, tragicamente, como se acreditasse na sua própria propaganda; como se todos os problemas tivessem nascido com Bush e fossem agora acabar graças ao toque taumatúrgico do novo Presidente. Obama já mandou duas mensagens ao Irão (uma delas em farsi, o que até é uma ofensa para os cerca de 50% de não-persas do pais). Talvez seja um pouco exagerado: o Irão não merece assim tanta deferência. Claro que o Irão respondeu acelerando os seus planos nucleares e exigindo ainda mais contrição aos EUA. A administração propôs recomeçar tudo com a Rússia, no acto varrendo para debaixo do tapete a ocupação militar de parte da Geórgia. A resposta foi o anúncio de um plano de rearmamento. E no dia em que Obama anunciou o seu conceito de um mundo sem armas nucleares, a Coreia do Norte mostrou que tinha dado um salto tecnológico. No meio disto, ainda se viu John Kerry na Síria a pedir desculpa pelos actos passados dos EUA e delegados americanos a manterem “conversas privilegiadas” com o Hamas.

A postura de Obama tem sido a de aceitar o peso da culpa por tudo o que aconteceu no passado recente (e muitas vezes remoto), desse modo libertando a consciência dos outros. Mas a verdade é que nem tudo foi culpa dos EUA nem a consciência dos outros merece sempre ser libertada. Perante esta mortificação, anda tudo a ver até onde a nova América os deixa ir. A continuar assim, pode deixá-los ir bem longe. Mas nalgum ponto terá de parar. Resta saber qual e se vamos gostar do resultado.

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