Plano tóxico

(Publicado no jornal Meia Hora, 2/4/2009)

O economista Paul Krugman não é exactamente conhecido pela moderação. Perante o lunático orçamento Obama (um défice orçamental de 14% do PIB), achou que era pouco… Mas no que toca ao recente plano de salvamento do sector financeiro americano deve reconhecer-se-lhe alguma razão. Basicamente, o que ele diz é: se é o Estado que vai garantir os fundos para a compra dos “activos tóxicos” nos balanços dos bancos, então deveria estar preparado para assumir a sua propriedade. Também não é uma ideia moderada, mas parece certa.

Não é que eu aprecie muito a propriedade pública. Mas o recente plano do secretário do Tesouro Geithner assemelha-se a uma brincadeira com o dinheiro dos outros (do Estado, ou dos contribuintes, para sermos mais exactos). No essencial, o plano funciona assim: o Estado subsidia parcerias público-privadas para adquirir os tais activos tóxicos, que neste momento ninguém quer comprar. O grande mistério sobre eles é quanto valem realmente. Grande parte não vale sequer um bit do computador em que estão registados; alguns haverá que, devidamente reestruturados, poderão ser ainda recuperados. Qual a proporção de uns e outros? Ninguém sabe. De acordo com o plano, os activos que se recuperarem renderão ao Estado e às instituições financeiras privadas envolvidas, numa proporção de 50% para cada um, a valorização que for conseguida. Quanto aos que não se recuperarem, as perdas serão inteiramente assumidas pelo Estado. Também eu gostava que me oferecessem um negócio assim. O que Krugman diz é: se o Estado assume os riscos todos, então também deveria encaixar todos os ganhos.

Claro que há uma terceira solução, aquela que algumas pessoas andam a defender há mais ou menos dois anos: desencadear um processo de falências ordenadas, permitindo a eventual reestruturação dos bancos que ainda merecerem reestruturação (e deixando ir os que não merecem) e permitindo também conhecer com exactidão o estado das contas dos bancos (que ninguém sabe efectivamente qual é e os próprios bancos não deixam saber, embora continuem a pedinchar fortunas). Muito menos recursos públicos estariam aqui envolvidos e o sistema seria efectivamente limpo daqueles que o entopem com a sua dívida incobrável.

Não é só um erro económico: quando banqueiros começarem a fazer fortunas com subsídios do Estado e o Estado começar a pagar o estrago que eles fizeram no passado, dá-me a impressão de que a coisa vai ficar ainda mais tóxica.

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