Esquerda, volver

(Publicado no jornal Meia Hora, 26/3/2009)

Como publicação sempre preocupada com estas coisas, o jornal Público trazia no outro dia uma extensa análise sobre a viragem do mundo ocidental à esquerda. Dias antes, um colunista do mesmo jornal, José Vítor Malheiros, demolia a direita por discutir com uma esquerda que já não existe: uma esquerda irresponsável, assente em paradigmas antigos, de que as experiências históricas do socialismo real e outras seriam o exemplo. A esquerda já não seria nada disso.

Quer-me parecer que estão os dois certos: o mundo vai virar à esquerda para já (não eternamente, pois a vida dá muitas voltas) e a esquerda está diferente. Mas por outro lado estão errados: pelos antigos padrões da esquerda, na verdade o mundo está a virar para uma esquerda à direita da antiga esquerda, e a esquerda mesmo quando muda também é sempre mais ou menos a mesma. Não sou um homem velho, mas era já adulto quando muita gente (incluindo pessoas hoje em dia no governo) defendiam convictamente (diria mesmo histericamente) a União Soviética, a China comunista, a Albânia comunista, a Roménia comunista, a Coreia do Norte, a Líbia de Khadaffi ou até o Zimbabué como melhores exemplos de soluções políticas do que as nossas democracias liberais. Note-se que a maior parte deles não deixou de acreditar nisso por exame intelectual mas porque essas experiências ruíram nos anos 80 e 90. Ora um dos aspectos mais interessantes da recente crise é como, apesar das ferozes críticas ao “capitalismo”, a esquerda não aponta nenhuma substituição “sistémica” (como agora se diz). Apenas agita o espectro da decadência do “neoliberalismo” (que um dia bem gostaria de saber o que é exactamente), propõe “mais Estado” (ainda mais, caramba: como se não bastasse a quase metade da riqueza que vai em impostos, mais os chips nas matrículas e o “serviço público” de televisão fazendo propaganda do Governo) e a “reforma do sistema”.

O mais recente culto místico da esquerda é Obama. Ela acha que ele vai transformar os EUA numa social-democracia. Bem: os EUA já são uma social-democracia desde o New Deal. De qualquer forma, mil vezes Obama do que Brejnev, Enver Hoxha, Khadaffi ou Mugabe. De facto, a esquerda já não é a mesma e até já chegou a esta “grande casa ocidental”. Mas como sempre na esquerda, recusa admitir que esteve errada e continua a achar que os outros são maldosas criaturas movidas por motivos sinistros. A esquerda já não é a mesma. Mas é sempre a mesma.

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: