O princípio de uma longa viagem

(Publicado no jornal Meia Hora, 12/3/2009)

Na presidência Obama, já passámos a fase das expectativas e medidas simbólicas para chegarmos às políticas concretas. Não se trata já de projectar anseios e dúvidas num quadro limpo. Nesse sentido, espanta que o plano orçamental da administração tenha merecido tão pouca consideração. Ainda falta a aprovação do Congresso, mas o dito plano entra verdadeiramente por território inexplorado. A ser passado sem alterações, teremos em 2009 um aumento de 5% (!) da despesa pública federal enquanto percentagem do PIB e um défice orçamental de 14%(!!), também enquanto percentagem do PIB. É verdade que estes valores se explicam em parte pela quebra da actividade económica, mas 14% do PIB é um défice de estilo latino-americano ou então típico de um país em guerra – e efectivamente a última vez que atingiu esta dimensão foi durante a II Guerra Mundial.

A desculpa do legado de Bush tem servido para muita coisa, mas já não colhe aqui. A expansão da despesa não tem que ver com aquilo que ele deixou, mas com planos próprios, nomeadamente de expansão dos sistemas públicos de saúde e educação, para além dos gastos em infraestruturas e salvamento do sistema financeiro. E tem também que ver com a incapacidade de cobrar impostos na proporção necessária para financiar os programas. Prepara-se, portanto, uma verdadeira explosão da dívida pública americana. O orçamento prevê uma redução do défice para cerca de 3% em 2013, mas para isso assenta numa previsão da expansão da economia a partir de 2010 à volta de 4% anuais, que não se está bem a ver actualmente como vai ser obtida. No mínimo, trata-se de optimismo perigoso.

Demonstrando talvez falta de crença nas suas próprias previsões, Obama mandou a Secretária de Estado Clinton fazer a sua primeira visita à Ásia, àqueles países que ainda têm bastante poupança, para lhes pedir que continuem a comprar dívida pública americana. Particularmente clamoroso foi o seu comportamento na China, onde ao mesmo tempo que incitava o governo local a fazer o jogo anunciava que os EUA iam fechar os olhos ao problema dos direitos humanos do horrível regime local. Depois de anos a ouvirmos sobre os erros de Bush, deixando endividar os americanos para serem financiados pelos chineses, agora não ouvimos nada, mesmo que seja a continuação da mesma política, em que a dívida pública tomou a vez da dívida privada. A presidência Obama iniciou uma longa viagem. E não sabemos onde nos vai levar.

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