A tribo

(Publicado no jornal Meia Hora, 5/3/2009)

Tem-se por aí dito que o congresso do PS foi pobre. Na verdade foi tão pobre quanto o panorama político ultimamente tem sido. Bem podemos lamentar a ausência de ideias, para além de um fetichismo de “esquerda” sem tradução programática digna de nota. Bem podemos lamentar o ambiente histérico que rodeou todo o evento (as “campanhas negras”, a “democracia decente”, os “parasitas”…). Mas a verdade é que o congresso se concentrou naquilo em que precisava concentrar-se.

Os problemas do PS são de quem deve apenas de ter receio de si próprio. À direita, por enquanto não há nada. Os únicos obstáculos que se podem antecipar no caminho para a maioria absoluta são o célebre caso do shopping de Alcochete e os partidos à sua esquerda. Quanto a estes, só valem o que valem nas sondagens justamente porque a vitória do PS está garantida. Eis o que permite devaneios de genuinidade. Caso o “fascismo” ou a “extrema-direita” (isto é, o PSD e o CDS) estivessem para voltar, já não haveria tantos trânsfugas. Não é de crer que daqui resulte a recuperação de votos perdidos. Mas, muito francamente, que outra coisa fazer? Quanto ao shopping, era preciso mostrar que o líder não se encontra afectado e que, portanto, continua a comandar a tribo. Os jornalistas deram em criticar muito a linha oficial da “campanha negra”. Mas é a única possível, enquanto a investigação judicial não chegar a uma qualquer conclusão – e, se bem a conhecemos, não o vai fazer em tempo útil. Até porque, havendo ou não uma campanha generalizada (e não há), alguma razão o líder tem: as suspeitas apenas em parte resultam de uma investigação; na sua maior parte, resultam de notícias de jornal baseadas em “fugas de informação” que, por definição, não estão contextualizadas. Quem garante que não haja jornalistas e jornais (não todos, apenas alguns) com agenda política interessados na derrota do PS?

A única maneira de sairmos desta tristeza seria o PSD renascer. Mas há muito que o PSD não sabe fazer mais nada senão esperar pela derrota alheia. Para isso até conta com o efeito destrutivo do caso do shopping. Só que a sucessão de escandaleiras a que se tem resumido recentemente a política portuguesa tornou a opinião pública cínica: a serem verdade todos os escândalos, os nossos políticos seriam traficantes de armas, traficantes de droga, falsários, pedófilos, pervertidos sexuais e corruptos. Passado um certo limiar de choque, já nada nos surpreende. E ou acreditamos em tudo ou não acreditamos em nada.

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