Décadas perdidas

(Publicado no jornal Meia Hora, 26/2/2009)

Tem-se estabelecido ultimamente um paralelo entre a actual situação económica mundial e a do Japão nos anos 90, a chamada “década perdida” japonesa. A crise tem origem semelhante: uma “bolha” imobiliária alimentada a crédito bancário que um dia rebentou. Inúmeros especialistas aconselham agora grandes programas de despesa pública e a redução da taxa de juro para que não haja uma década perdida global. Isto é muito interessante, pois foi precisamente assim que o Japão entrou na sua. Quando a bolha rebentou, o Banco do Japão reduziu a taxa de juro central até chegar a zero. Ao mesmo tempo, os governos multiplicaram os programas de “estímulo” público. Desde então até hoje, o Japão já acumulou mais de dez programas de estímulo, todos incapazes de resolver o problema e apenas com uma consequência clara: a explosão da dívida pública. De um dos países mais disciplinados em termos de contas do Estado, o Japão passou a ser o país desenvolvido com maior dívida pública (180% do PIB).

Engraçado é como aqueles que agora se desmultiplicam a sugerir programas de estímulo passaram os anos 90 a dar lições ao Japão. O Japão não tinha que andar a facilitar na política monetária nem a endividar-se descontroladamente, diziam eles. Tinha era de enfrentar o problema da desvalorização dos activos bancários, ou seja, limpar os bancos da dívida incobrável. Para isso, no fundo, tinha que reformar as suas instituições económicas, nomeadamente aquele “capitalismo patriarcal” que garante a circulação de pessoal e de interesses das mesmas famílias (Honda, Toyota, Mitsui, etc.) entre bancos, grupos económicos e Estado. O ponto de vista era o de ocidentais certos de que no Ocidente tal coisa não se verificaria, graças à transparência das nossas instituições económicas.

Pois não tiveram de esperar muito para se verem a engolir os seus próprios conselhos. De facto, por onde andam os arautos da transparência e da reforma? Logo agora que tudo indica serem mais precisos do que nunca. Se o Ocidente não tem o mesmo “capitalismo patriarcal”, tem o “capitalismo de bem-estar”. Foi ele que conduziu a uma também estranha ligação entre finança e Estado, com aquela a desempenhar o papel de financiador de programas sociais de habitação e consumo que agora se revelaram insustentáveis. Pelo caminho que as coisas estão a tomar, os países ocidentais não vão seguir os seus próprios conselhos. É mesmo capaz de ser uma década (ou mais) perdida(s).

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