Anos 30 ou anos 70?

(Publicado no jornal Meia Hora, 19/2/2009)

Houve no século XX duas grandes crises económicas internacionais, uma nos anos 30 e outra nos anos 70. Em ambas, os acontecimentos seguiram o mesmo padrão, que na actual crise se repete. Cada país começou a usar os instrumentos à mão para defender a economia nacional. Primeiro, manipularam a taxa de câmbio para embaratecer os seus produtos no mercado mundial, depois aumentaram a despesa pública, para fazer crescer o emprego, no passo seguinte ergueram barreiras alfandegárias para evitar a entrada de produtos estrangeiros. No final, desesperados, acharam-se a usar uma combinação de cada uma destas coisas, convencidos de estarem a combater a crise. A crise, curiosamente, recusava-se a ser combatida.

Para quem não reparou, este é o pacote “keynesiano”. Muitas pessoas se têm lembrado ultimamente de se auto-intitular “keynesianas”. Mas talvez fosse bom perceber que o keynesianismo é uma espécie de nacionalismo económico. No essencial, o que ele nos diz é que todos os instrumentos nacionais são legítimos contra o mercado mundial. Como o mercado mundial é constituído por outras economias nacionais, o keynesianismo é uma forma de guerra económica e comercial. Durante uns tempos pareceu existir grande auto-contentamento com a redescoberta do “keynesianismo”, que muitos dos seus partidários nem sabem muito bem o que significa. A crise era culpa do “neoliberalismo selvagem” e a solução estava no regresso do “Estado”, sob a forma suave do “keynesianismo”, já que ninguém teve coragem de ir desenterrar os comprovados desastres do “socialismo” propriamente dito. Ora, como a culpa não foi do neoliberalismo e como a crise resiste ao keynesianismo, tem havido algum retorno à modéstia.

A dúvida sobre a actual crise não é se existe ou não mas sobre quanto durará. Tanto nos anos 30 como nos 70, as receitas keynesianas e proteccionistas foram usadas, muito mais moderadamente na última do que na primeira. Mas em ambas, à medida que se usavam as ditas receitas, o crescimento lento e o desemprego também continuavam. A crise dos anos 30 resolveu-se em 1939 com a II Guerra Mundial; a dos anos 70, dez anos depois de começar, quando, depois de muita insistência e comprovada a incapacidade das receitas “keynesianas”, uma certa libertação da economia e da sociedade ocidentais lhes devolveu algum dinamismo. A segunda solução é certamente preferível à primeira. Se começarmos a fazer as coisas certas agora, talvez não tenhamos de esperar dez anos.

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