O messias trapalhão

(Publicado no jornal Meia Hora, 12/2/2009)

O ambiente mais próprio da chegada do Messias do que da eleição de um presidente não deixará muita gente ver, mas as primeiras semanas do mandato de Obama pouco menos têm sido do que um desastre. São já quatro os candidatos a membros da administração a ter de recusar o cargo por ilegalidades várias. Acresce a relação próxima do Presidente com o comprovado corrupto ex-Governador do Illinois: eis que destoa do padrão ético a ser supostamente introduzido em Washington pela nova administração. Mesmo se pode dizer-se que o presidente não sabia, trata-se de uma grande ineficiência no processo de escrutínio das condições de eligibilidade para cargos executivos. Como por cá se dizia há tempos: uma série de trapalhadas.

Depois houve a cláusula “comprar americano” no pacote de “estímulo” da economia, algo que por uns dias nos pareceu devolver aos tempos escuros da Tarifa Smoot-Hawley e do proteccionismo dos anos 30. É verdade que a cláusula lá foi retirada, mas para isso teve meio mundo de avisar que poderiam seguir-se retaliações desagradáveis. E convém estar atento: o bichinho proteccionista está lá; num ambiente mais tenso, é capaz de voltar.

Na política externa também vale a pena ficar preocupado. Para além da simbologia do encerramento de Guantánamo (inútil em termos práticos), o primeiro passo foi dar uma entrevista a uma televisão de capitais sauditas(!) estendendo a mão ao mundo árabe e ao Irão. A resposta não se fez esperar: no dia seguinte o Hamas atacou Israel e o Irão disse que sim, mas “exigiu” que os EUA pedissem desculpa por tudo o que fizeram nos últimos 60 anos. Seguiu-se a proposta de reduzir o arsenal nuclear em conjunto com a Rússia. Era aqui que a Europa ocidental devia entrar em pânico: trata-se da ameaça de estabelecimento de relações preferenciais dos EUA com a Rússia, curto-circuitando a Europa. Como quando, durante a II Guerra Mundial, Roosevelt preferiu dar espaço à expansão do Exército Vermelho pela Europa fora. De resto, a Rússia também enviou logo um sinal, mandando o Quriguistão fechar uma base americana.

Das duas uma: ou estamos perante a arrogância trágica de quem acha que vai reescrever tudo num quadro limpo quando não o pode fazer, ou então perante a apresentação da face mais agradável agora para depois, à vontade, melhor poder “malhar” (como diz um português ilustre). De uma forma ou de outra, não descansa ninguém. Enfim, ainda estamos no princípio. Entretanto, tudo pode mudar.

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