O estado da política em Portugal

(Publicado no jornal Meia Hora, 5/2/2009)

Se alguma vez o foi, a política em Portugal deixou definitivamente de ser um espaço para discutir ideias e projectos. Deixou até de ser um espaço para a afirmação da personalidade e do carácter dos seus protagonistas. Desde que o PS assumiu para si o papel do corte e costura orçamental, ninguém sabe o que propor em alternativa. Mesmo agora que, precisamente ao contrário, passou a assumir o da incontinência orçamental, continua a não haver ninguém a opor-se, para além de umas graças inconsequentes. Nem a esquerda (santo Deus) capitaliza com a crise. Depois de uns fogachos de alegria com o suposto “fim do capitalismo” e de uns congressos sobre Marx, ei-la ansiosa para que tudo volte à mesma a fim de poder continuar a sua feroz oposição ao capitalismo à sombra da pacata prosperidade capitalista.

Na ausência de ideias, a política portuguesa está convertida numa sucessão de escandaleiras que entusiasmam os profissionais mas deixam toda a gente indiferente: qual é a novidade? Não soubemos todos sempre que os políticos são uns aldrabões, uns corruptos, uns pervertidos? Na ausência de ideias, sobram os ditos “processos judiciais”, na verdade processos de justiça popular feita através da comunicação social. Primeiro foi o “escândalo Universidade Moderna”, depois foi o “escândalo Casa Pia”, depois o “escândalo Universidade Independente”, agora é o “escândalo Freeport”. Todos judicialmente inconsequentes, mas politicamente muito eficazes. Nem é preciso fazer oposição. Basta esperar pelo próximo “escândalo”. No meio disto, o lugar-comum é o famoso “a Justiça tem de ser célere”. Mas já toda a gente percebeu que, por exemplo, o PSD agradeceria imenso que a “Justiça” fosse lenta, continuando a apostar na cozedura em fogo brando do primeiro-ministro. E se fosse ao contrário, o mesmo aconteceria. Entretanto, o Governo não governa e a oposição não faz oposição. Quem governa são os magistrados, aliados aos jornalistas através das chamadas “fugas de informação”.

Bem pode o mundo ruir à nossa volta, com a crise económica e o desemprego a espalharem-se. Bem pode a bela tolerância liberal esfumar-se por entre greves contra estrangeiros em Inglaterra e conselhos do Presidente Obama para que os americanos “comprem americano”. Bem pode a Grécia destruir-se à pancada entre anarquistas e polícias. Bem pode a “harmonia ocidental” desaparecer um bocadinho todos os dias. As ditas “democracias ocidentais” (a nossa incluída) por estes dias só dão vontade de chorar.

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