A segunda melhor opção

(Publicado no jornal Meia Hora, 29/1/2009)

É um mundo esquizofrénico: foram anos de conselhos morais sobre os excessos do consumo, o abismo do endividamento e as virtudes da poupança. Agora, governo atrás de governo implora-nos que continuemos a abusar do cartão de crédito e teme (imagine-se) que comecemos a poupar. Não se percebe: ao mesmo tempo que se condenam os excessos recentes, chovem os incentivos para que persistamos neles. Afinal era ou não mau o “consumismo”?

Ora, precisamente quando pessoas e bancos começam a procurar corrigir aqueles excessos (poupando mais e tornando os empréstimos mais caros) aparece o Estado endividando-se e subsidiando o endividamento das pessoas. É a ideia peregrina de que a despesa pública indiscriminada vai substituir a despesa privada. Alguém se lembra das palavras da actual ilustre líder do PSD, quando considerou o congelamento de salários da função pública a medida “mais estúpida do mundo”? Pois há aqui um sério rival a ocupar o lugar.

É verdade que neste momento a melhor opção para recuperar as economias está inviabilizada. Os salvamentos generalizados já não permitem distinguir entre quem sofre apenas de um natural aperto de liquidez dada a conjuntura e quem é estruturalmente insolvente. A selecção pelo mercado das empresas deixou de funcionar. Mas ainda há uma segunda melhor opção: conviria talvez começar por baixar impostos, para aumentar o rendimento disponível das pessoas e as margens das empresas. Diz-se que isso levaria à poupança, não estimulando a economia no imediato. Não necessariamente. A poupança é necessária. E não é igual a entesouramento. Na verdade, a poupança devolveria fundos aos bancos, o que lhes permitiria disponibilizar às empresas crédito para as suas reestruturações. Seria o regresso a uma certa sanidade no sector financeiro. Acresce que se as quebras de impostos forem entendidas como permanentes a poupança será menor. Depois, o Estado, em vez de se pôr a regar a economia com dinheiro barato, poderia começar a promover reestruturações sectoriais, deixando fechar empresas merecedoras desse destino, deixando sobreviver outras e promovendo fusões ou outras formas de reorganização. A despesa pública poderia então funcionar para o que deve: apoiar no desemprego daqui resultante. Não sendo o regresso do mercado para reorganizar a economia, sempre seria um substituto razoável. As primeiras reacções foram de pânico e criaram a miserável situação actual. Está na altura de sermos um pouco mais espertos.

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