Os remédios não estão a funcionar

(Publicado no jornal Meia Hora, 15/1/2009)

Sucedem-se as medidas inéditas ou quase para combater a crise económica: o Fed baixou a taxa de juro central para 0%(!); o Banco de Inglaterra baixou-a para um nível nunca visto desde a fundação há mais de três séculos; diversos Estados (incluindo o nosso) recapitalizam e nacionalizam bancos em dificuldades; a disciplina orçamental é mandada às malvas do Pacífico ao Atlântico. E no entanto o mercado do crédito continua sem funcionar (ninguém empresta a ninguém) e há cada vez mais economias em recessão.

Estas medidas obedecem ao princípio simples e inútil de inundar as economias com dinheiro. E no entanto tudo parece indicar que o problema não é esse. Na verdade, trata-se da velha política da avestruz: não enfrentar os problemas. Uma crise como esta não se resolve sem retirar recursos das actividades que cresceram excessivamente para as redireccionar para novas e efectivamente rentáveis oportunidades. A política corrente, no fundo, significa arruinarmo-nos ao mesmo tempo que não resolvemos nada. A complacência para com as nossas democracias prósperas ter-nos-á feito esquecer o princípio de prudência de que não vivemos num mundo perfeito mas apenas naquele que será o melhor possível. Provavelmente não resolveremos nada enquanto não enfrentarmos a ideia de que nos últimos anos alguma coisa esteve bastante mal nessas democracias. Para o que agora interessa, esteve mal a politização do sector financeiro, que foi usado como instrumento de política económica e social: tratou-se de dar crédito barato para casas, carros e consumo em geral, ao mesmo tempo que se criaram empregos milionários para pessoas em trânsito entre o público e o privado. Para Estados que já não têm margem de manobra, dada a dimensão das despesas e da dívida, foi um último recurso com consequências trágicas. De resto, a própria dimensão e impacto do sector financeiro parecem estar por detrás dos ciclos esquizofrénicos dos últimos anos: foi o sector que criou a bolha imobiliária; foi ele que, quando esta rebentou, criou temporariamente a do petróleo e dos bens alimentares; e é ele que agora foge de tudo o que seja compromisso de crédito, paralizando as economias.

Entretanto, a cada medida de “emergência”, cresce um monstro grotesco, com o Estado a tornar-se proprietário ou decisor principal num número cada vez maior de sectores – o mesmo problema dos últimos anos mas em pior. Quando for preciso, vai-nos sair muito caro desmontar o horrendo mamarracho.

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