Outro

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O estado da união monetária europeia

Dezembro 3, 2008 by Luciano

(publicado no jornal Meia Hora, 27/12/200 8)

Por causa da crise, há rumores de países que, embora tradicionalmente cépticos sobre o euro, querem aderir à união monetária. Mas cabe perguntar o que poderia o euro fazer por eles. É certo que poderia salvar alguns da bancarrota imediata (o que não é pouco). Mas se é para se transformar num refúgio de Estados falidos, perde a sua força e automaticamente também essa função. Vale a pena olhar para o caso de alguns dos seus participantes, especialmente o mais próximo de casa, o do nosso país.

Neste momento, tudo apontaria para a vantagem contrária: Portugal abandonar o euro. O valor cambial do euro, bem como a inexistência da vantagem cambial face aos parceiros da zona, continuam a ser punitivos para as nossas exportações, apesar da recente desvalorização. Tudo indicaria que teríamos a ganhar em desvalorizar uma hipotética moeda nacional, que não existe. Tudo indicaria também a vantagem de uma maior liberdade orçamental, no sentido de “estimular” a economia. Mas não a temos: para além do Pacto de Estabilidade, estímulos unilaterais agravariam o endividamento externo, já de si em níveis historicamente inéditos.

No entanto, o abandono não poderia ser feito sem custos insuportáveis. Uma presumível saída do euro e subsequente restauração do escudo levaria a tal queda do valor deste e posterior fuga de capitais que tornam impossível considerar a hipótese. Uma eventual compensação seria a elevação maciça da taxa de juro. Mas daqui resultaria um brutal efeito negativo sobre o crescimento, a menos que fosse “equilibrado” com uma inflação igualmente desastrosa.

A união monetária europeia está numa espécie de engarrafamento sem saída: há tensões puxando para o seu fim, mas os custos seriam tão grandes que o tornam quase impraticável. Existiriam duas possíveis soluções positivas: uma, o abandono coordenado de todos os países, que evitasse fugas das novas moedas menos credíveis. Trata-se de algo estritamente académico: não há finais de uniões monetárias coordenados. A outra, a criação de uma dívida pública e de um ministério das Finanças europeus. Também não é fácil: tratar-se-ia, na realidade, da união política que muitos querem mas outros tantos temem.

O euro vem funcionando como um torniquete kafkiano: se para muitos países era vantajoso não o ter como moeda, abandoná-lo teria um preço tão elevado que a possibilidade nem é considerada. Mas as tensões existem e alguma solução terá de surgir. Nenhuma muito excitante.

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