I see things…

Sobre o dito downgrade da dívida portuguesa, gostava de reproduzir aqui dois pequenos artigos publicados em Outubro do ano passado. Eu sei que não é bonito citarmo-nos a nós mesmos, mas, ponto 1, se não formos nós a fazer publicidade própria quem fará? e ponto 2, estou sem tempo agora para textos novos. Também não se trata de dizer: “eu não vos disse…”; trata-se de estar atento e evitar as armadilhas intelectuais da infeliz propaganda europeia, que cega tanta gente inteligente para a percepção do mundo em que realmente vivemos:

I – O fim do Euro?

Outubro 10, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 9/10/200 8)

No meio deste misto de pânico e euforia pelo fim do domínio americano, começamos agora a perceber que a grande vítima da crise financeira talvez venha a ser a União Europeia. Desde há um ano que a UE, pela acção da sua única instância central relevante, o Banco Central Europeu, adoptou uma política suicidária (que foi louvada por toda a gente). Quando os problemas começaram nos EUA e o FED procurou controlá-los baixando a taxa de juro, o BCE manteve-a alta, dificultando a tarefa do grande parceiro do outro lado do Atlântico. Faz parte do padrão de cretinismo arrogante em relação aos EUA que infelizmente se tornou típico na Europa: não havia cá problemas daqueles; por cá estava tudo tão bem que o que importava era a inflação. E a falta de solidariedade não foi apenas com os EUA, mas com todo o mundo, ao engendrar a alta do preço do petróleo (que é denominado em dólares). Ainda a semana passada, não houve político europeu que não irradiasse jactância sobre o capitalismo disfuncional dos EUA, explicando que não eram cá precisos Planos Paulsons para nada.

Mas rapidamente os bancos europeus começaram a patinar. Foi quanto bastou para descobrirmos a cruel verdade: os ditos bancos estão ainda mais “alavancados” (palavra horrível que, no essencial, quer dizer endividados) do que os americanos. Ou seja, depois das grandes lições sobre a falta de regulação dos mercados financeiros americanos e depois das grandes afirmações de que os “bancos universais” europeus eram a garantia contra o excesso de “alavancagem”, descobriu-se que os magníficos reguladores europeus tinham deixado os magníficos bancos universais europeus seguir por um caminho ainda mais louco do que os bancos de investimento americanos. E quando chegou a hora de os salvar, a dura realidade apareceu: não há nenhum Departamento do Tesouro central que os salve (ao contrário dos EUA). O passo seguinte foi óbvio: cada país começou a salvar os seus bancos, destruindo em dias a integração dos mercados financeiros que durou anos a construir.

Nacionalizados os bancos, não deverá custar muito passar à nacionalização da política monetária, pondo termo à experiência do Euro. Há economias em recessão que não quererão esperar pelo arbítrio do BCE. Daqui à guerra comercial e ao nacionalismo económico também não vai um grande salto. O Euro está ameaçado. E a União Europeia? Já esteve menos.

 

II – Portugal, o euro e a crise

Outubro 31, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 30/10/200 8)

Numa entrevista dada a semana passada, José Miguel Júdice afirmou que, “se não fosse o euro, Portugal estaria na mesma situação da Islândia”. Já ouvi este argumento semi-verdadeiro a mais do que uma pessoa. Mas talvez valha a pena pensar de outra maneira: se Portugal está numa situação de grande endividamento (daí o paralelo com a Islândia, o único relevante, pois a origem dos respectivos endividamentos é muito diferente), em grande medida deve-o ao euro. Ou seja, se não fosse o euro, já há muito que teríamos sido forçados a corrigir o endividamento, ou nem sequer lá teríamos chegado.

O euro permitiu a Portugal várias coisas: uma, o aumento da credibilidade externa; outra, a valorização da moeda e a redução das taxas de juro; finalmente, o recente grande envidamento externo e a sua aparente irrelevância económica: afinal, em termos monetários, Portugal não passa de uma região de uma das maiores áreas monetárias do mundo – é como se, antigamente, nos preocupássemos com o endividamento da Beira Alta relativamente ao país. Portanto, foi o euro que gerou os incentivos para o endividamento (a valorização da moeda e a redução da taxa de juro) e criou as condições para ele (a credibilidade externa e a integração numa zona monetária extra-nacional). A valorização da moeda tornou-nos pouco competitivos e a redução da taxa de juro favoreceu o endividamento familiar para casas e consumo; a credibilidade externa e a integração na zona euro permitiu tornar o crescimento económico menos relevante para o bem-estar, dado que também permitiu um endividamento que em larga medida o substituiu.

Tudo funciona até haver uma crise séria. Ora, a crise está aí e agora resta ver quais as consequências e a forma como reagimos a elas. Por um lado, as famílias e as empresas vão ter mais dificuldade em satisfazer as suas dívidas e, logo, os bancos também terão dificuldade em satisfazer as suas dívidas aos credores externos; por outro, os próprios credores externos, a braços com dificuldades de pagamentos generalizadas pelo mundo fora, terão menos disponibilidade para financiar o endividamento português. Já aqui se disse que uma das grandes vítimas da actual crise poderia ser o euro. Não se trata de fazer previsões. Trata-se de ver o horizonte de ameaça. E se não é garantido, as ameças são muitas. Sendo que Portugal, como um dos países mais endividados da zona euro, está certamente na calha para ajudar a esse resultado.

 

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