Mudanças em que podemos acreditar

(Publicado no jornal Meia Hora, 8/1/2009)

“A mudança em que podemos acreditar” foi o bem sucedido mote da campanha do Presidente-eleito americano Barack Obama. Entretanto, mudou efectivamente o ano e muita outra coisa mudou. Eis algumas:

Lá fora, mudou a economia mundial, que depois de vinte anos de prosperidade praticamente ininterrupta entrou numa crise para a qual não se vê fim. Mudou a situação na Palestina, quando o Hamas quebrou tréguas, atacando Israel a partir da Faixa de Gaza e levando Israel a um violento raide militar. Mudou uma certa tranquilidade no terrorismo internacional, interrompida por um extraordinário ataque a Bombaim. Mudou a Rússia, que voltou a ameaçar e atacar vizinhos. E mudou mesmo o Presidente americano, o qual, graças à relação de amor-ódio (uns mais amor, outros mais ódio) que todos temos com os EUA, deixou de ser a figura mais odiada no planeta para passar a ser a mais amada.

Cá dentro, mudou a célebre “cooperação estratégica” entre Governo e Presidente, que já não é cooperação nem estratégica. Mudou o PSD, que não se consegue afirmar como alternativa. Mudou a política do Governo, que deixou a austeridade para passar à liberalidade. Mudou a esquerda, que depois de anos de desilusões, reaparece triunfante com a crise do capitalismo e notáveis resultados nas sondagens.

Não era certamente neste tipo de mudanças que Barack Obama estava a pensar, mas foram as que aconteceram. O mais interessante é tratarem-se de mudanças que nos devolvem a lugares muito conhecidos: a minha geração passou toda a adolescência numa crise que parecia não ter fim; há sessenta anos que a situação na Palestina segue o mesmo deprimente padrão; há trinta anos que o terrorismo islâmico ameaça meio-mundo; e há quinhentos anos que a Rússia ameaça a Europa. Desde a fundação da República (mesmo no salazarismo) que presidentes e governos portugueses se esgatanham uns aos outros – e na democracia então quase não podemos viver sem isso; desde há vinte anos que, quando há maioria absoluta e o Presidente está próximo da oposição, a oposição nem consegue pôr-se de pé (alguém se lembra do PS quando Cavaco era primeiro-ministro e Soares Presidente?); há trinta anos que os nossos governos são dados à liberalidade; há trinta anos que a esquerda encara a nossa democracia como sua propriedade privada (pelo menos no discurso).

Pois são estas as mudanças em que podemos acreditar. No fundo aquelas que, como dizia o outro, quanto mais mudam mais deixam tudo na mesma. Bom 2009!

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