Um dia

Um dia, caso tenha paciência e ache que alguém ainda me liga, escreverei sobre a experiência da revista Atlântico, de que fui fundador e animador durante uns anos. Por agora, não me apetece. De qualquer forma, o encerramento do blogue Atlântico traz o definitivo fim da dita experiência. Houve muitas coisas boas e más nela, mas certamente uma das melhores foi ter colaborado com o Paulo Pinto Mascarenhas (que já não vejo vai para muitos meses). Devo dizer que, em termos pessoais, o Paulo foi responsável por me inventar enquanto colunista de jornais. Suspeito que não terá sido grande contribuição para o mundo, e também não é contribuição que esperasse propriamente dar. Mas lá a dei e lá me afeiçoei a ela. De qualquer modo, a verdade é que foi ele quem me convidou, nos idos de 2003, para escrever no já então moribundo Independente. Foi graças a esse período que, depois, dei o meu contributo para o chamado “jornalismo de referência”, com uma fulgurante passagem pelo vetusto Diário de Notícias, do qual saí sem grande glória mas mais ou menos aliviado. Era o tempo em que se dizia que eu era um “arauto da nova direita” (bonito nome) e parece que havia pessoas que tinham medo que eu um dia (não era só eu, nem sequer sobretudo eu: havia mais umas quantas almas inomináveis ainda mais perigosas) mandasse no país. No comments. Foi ainda o Paulo quem sugeriu o meu nome ao Sérgio Coimbra, que andava em 2007 à procura de colunistas para um jornal que estava então a fundar (o Meia Hora, um óptimo projecto, que espero perdure). Estando eu desempregado enquanto colunista, talvez aceitasse. Aceitei e lá ando a debitar umas crónicas semanais, escondido da “referência” mas próximo de uma enorme multidão de leitores: dada a circulação do jornal, nunca tanta gente me leu (presumo eu). No meio disto tudo, houve a Atlântico, sobre a qual já disse que nada direi de especial agora, mas onde me reuni quase todas as semanas com o Paulo durante praticamente um ano e para lá escrevi ininterruptamente durante uns anos (depois interrompi). Portanto, sem o Paulo, nunca teria começado a escrever em jornais – o que às vezes me pergunto não teria sido melhor ideia. Seja como for, ainda não consegui retribuir-lhe nada disto.

Conto a história por uma razão principal: não sou caso único. Há por aí espalhados por vários jornais outros colunistas que o Paulo inventou, muitos deles muito mais bem adequados ao papel. Ou seja, como esta minha história há muitas outras por aí, cujo ponto de ligação foi o Paulo. Eu vi como era no tempo da Atlântico: onde houvesse uma voz em quem ele, com o seu radar, reconhecesse talento, ia lá buscá-la. Não perguntava nem exigia nada, apenas que escrevesse. As páginas da Atlântico encheram-se de vozes que nunca chegariam a lado nenhum não fosse ele, e muitas vão ficar. Por vezes ele enganou-se no talento, por vezes no carácter das pessoas que convidou, mas só não erra quem não tenta. Só Deus sabe como é que o Paulo manteve a revista a funcionar nos seus últimos longos meses de existência. Eu desisti. Mas ele conseguiu continuar a rapar o fundo ao tacho, mesmo quando já não havia tacho nem fundo. De certa forma, o Paulo, tal como me inventou a mim como colunista, inventou a Atlântico como “Revista Mensal de Ideias e Debates” (frase de que nunca gostei: demasiado tipo cineclube dos anos 60). Boa sorte, amigo.

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