Juntar as mãozinhas outra vez

(Publicado no jornal Meia Hora, 18/12/2008)

Há um ano, a fechar 2007, escrevi para aqui um artigo chamado “Juntar as mãozinhas”. Nele se dizia que “o ano não acaba bem, pelo menos na frente económica”. Sendo o panorama tão pouco animador, concluía: “para o ano resta, portanto, juntar as mãozinhas e rezar”.

O conselho não terá sido seguido, ou pelo menos não funcionou. Tudo piorou desde então. Por mais pessimista que então estivesse, estava também longe de imaginar que chegaríamos à actual situação, em que muito bom espírito sugere que possamos a estar a viver a Grande Depressão das actuais gerações. Mas pior ainda foi a destruição sistemática, no espaço de meses, de alguns princípios que definem as democracias capitalistas. No essencial, descobrimos que o sector financeiro é irresponsável, no sentido em que não é responsabilizável por nada. De uma ponta à outra do mundo, os sectores financeiros foram salvos incondicionalmente, não obstante se terem envolvido em actividades de enorme risco. Um efeito imediato foi a sucessão de pedidos de salvamento para os mais diversos sectores. Na ausência de explicação convincente sobre porque é que pelo menos alguns bancos não faliram, o mesmo tratamento começou a ser legitimamente pedido por todo o lado. Mas houve ainda pior, nomeadamente o desaparecimento do papel moralizador das falências. O sistema dito capitalista pressupõe uma certa desigualdade. Ela é, no entanto, justificada pelo facto de empresários e gestores terem uma presumível maior capacidade de gestão e também uma maior apetência e capacidade para arriscarem no investimento em determinadas actividades. O seu rendimento superior seria, assim, uma espécie de prémio de risco. Ora, um grande número deles não só não revelou grande capacidade de gestão como não foi responsabilizado pelos seus trágicos erros.

Não se pode passar o tempo a pedir disciplina, sobriedade e sacrifícios aos outros e depois recusar o padrão para si próprio. Por isso o risco agora já não é só económico: se a democracia passa a ser vista como um sistema de protecção social de ricos ineptos e irresponsáveis, ninguém se sente obrigado a deveres para com ela e é ela própria que está em perigo. Na Grécia já se incendiaram as ruas. Sempre teria a beleza de um ciclo: foi lá que a ideia democrática começou, também lá acabaria. Mas já outros países copiaram o exemplo.

É voltar a juntar as mãozinhas, agora não só pelo nosso bem-estar económico como também político. 

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: