Bombaim e mais além

(Publicado no jornal Meia Hora, 11/12/2008)

Não foi a primeira vez que Bombaim serviu de alvo a um ataque islamita coordenado. Em 1992, num só dia, 10 bombas rebentaram na cidade, como represália pelos linchamentos hindus aos muçulmanos, na sequência do incêndio da mesquita de Aydohia, suposto lugar de nascimento de Rama. Muçulmanos violentados puderam, depois das bombas  (nas palavras de um deles), voltar a “andar de cabeça erguida”.

Passar o ataque a Bombaim para a leitura mais vasta que o liga ao jihadismo global contra o Ocidente esquece a dimensão local. Não é que essa leitura não deva ser feita (já lá iremos). É que ela entende-se melhor entendendo a local. Lembre-se que, à altura da independência, a Índia esteve para ser aquilo que são hoje três países (o Bangladesh, o Paquistão e a própria Índia), os quais se separaram em torno da religião. A ideia original do Congresso de uma Índia multiétnica e multirreligiosa, foi logo bastante amputada à partida. Assim nasceram uma Índia maioritariamente muçulmana (os Paquistões: o Bangladesh era o Paquistão Oriental até 1971) e uma maioritariamente hindu. À medida que a ideia secular do Congresso se confundiu com uma certa elite perpetuando-se no poder, cresceu o integrismo hindu, expresso inicialmente no BJP mas colonizando cada vez mais o próprio Congresso. Hoje é grande a tentação de criar uma Índia religosamente pura.

Atacar a Índia é, em termos do jihadismo internacional, tão eficaz quanto atacar os EUA. A opressão dos muçulmanos, as memórias sangrentas da “partição” e a velha questão de Cashemira garantem imediato êxito até entre muçulmanos moderados. O que é crucial para um objectivo ulterior: minar o esforço militar da NATO no Afeganistão. De resto, ainda no domingo e na segunda, a própria NATO foi atacada no Paqusitão. A eficácia da NATO depende da preservação da rectaguarda logística do Paquistão e da preservação de uma Índia moderada e plural. Um conflito entre a Índia e o Paquistão ou a ascensão do integrismo hindu desguarnece essa rectaguarda, podendo mesmo tornar inviável a presença da NATO.

Tudo, no final, com um objectivo: testar o presidente-eleito dos EUA. O 11/9 foi o teste a Bush, um isolacionista de instinto. Para surpresa de muitos, Bush atacou. Hoje, os EUA ajudaram a construir uma democracia no Médio Oriente e ganharam um aliado (o Iraque). Os testes a Obama vão continuar. Fará ele o que Bush não fez, diminuir as responsabilidades americanas? Sim ou não? E em qualquer dos casos, o que se passará depois?

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