Mais Estado?

(Publicado no jornal Meia Hora, 20/11/2008)

Naturalmente, da cimeira do G-20 não resultou nada de espantoso, apesar dos anteriores anúncios grandiloquentes sobre a “refundação” da economia mundial. Para sermos justos, grande parte do seu efeito deveria ser (e foi) estritamente visual: ver aqueles líderes todos juntos afirmando estarem a combater a crise é um espectáculo de unidade que deverá devolver alguma confiança a toda a gente. E a confiança, como temos ouvido até à náusea, é muito importante para a economia. Em certo sentido, ainda bem que nada de especial resultou. Se alguma coisa aconteceu ultimamente foi uma sobrereacção à crise da parte dos governos. Em vez de intervenções criteriosas, eles optaram por encharcar o doente com todo o tipo de remédios na esperança de algum funcionar, mesmo não sabendo bem qual. Daqui resultou a ideia infeliz de que precisamos de mais Estado para enquadrar os mercados.

Já aqui tentei mostrar que não houve falta nenhuma de Estado nesta crise. O sector financeiro é o mais regulado dos sectores privados, é o mais próximo do Estado e aquele onde a promisucidade com o Estado é maior. Mais: o sector financeiro foi usado pelo Estado para prosseguir políticas que a situação dos orçamentos e das dívidas públicas já não permite com facilidade. Na origem desta crise está a tentativa de usar a inovação financeira para facilitar a compra de casas, “oferecer” crédito e difundir a propriedade e o consumo pelos estratos mais baixos da sociedade (e não foi só na América; basta pensar em Portugal). Ou seja: pede-se que o Estado “discipline” os mercados, mas aquilo a que assistimos nos últimos anos foi ao Estado a “indisciplinar” deliberadamente os mercados.

Quem defende mercados livres deve resistir à tentação (um pouco reminiscente dos comunistas da guerra fria) de dizer que o problema é que o “verdadeiro” liberalismo nunca foi aplicado: a URSS, Cuba ou a China não eram “bem” o comunismo, o que permitia sempre o investimento utópico em qualquer futura tentativa. Só que este é o capitalismo que temos, e a cocanha do liberalismo “puro” nunca virá. Haverá sempre intervenções do Estado e haverá sempre plutocratas promíscuos beneficiando da ponte entre público e privado. Mas apesar de tudo, os amigos dos mercados livres estão mais certos: o que faltou não foi Estado, mas a limitação das possibilidades daquele trânsito promíscuo. E é por aí que se tem de ir: se não é possível acabar com esse trânsito, devem limitar-se ao máximo os seus efeitos perniciosos.

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