Voltar a falar a sério

(publicado no jornal Meia Hora, 13/11/2008)

Como acontece ciclicamente, discute-se nos EUA (com glosas do lado de cá) se não terá sido criada uma nova maioria estável, aquilo a que por lá se chama um realinhamento (realignment). Desta vez, teríamos uma associação de “progressistas”, negros, hispânicos, jovens, trânsfugas republicanos e outras minorias (gays, por exemplo). Não tenho dúvidas de que ela ocorreu nestas eleições. Quanto a ser estável, parece-me por enquanto mero wishful thinking. É preciso esperar para ver.

Do que tenho menos dúvidas é que o realinhamento “reaganiano” se desfez. Já o havia feito durante os mandatos de Bush. E com ele desfez-se uma certa forma de unidade ocidental. Vendo bem, é estranho que Bush tenha sido o seu herdeiro. Pouca gente se lembra, mas Bush esteve para ser o presidente que iria retirar os EUA do mundo (inclusivamente da Europa). Terminadas as responsabilidades da guerra fria, cabia aos antigos protectorados andarem por si: a Europa, por exemplo, que se responsabilizasse pela sua defesa. Mas veio então o 11 de Setembro, e Bush socorreu-se da narrativa que tinha mais à mão: a do Ocidente ameaçado, para a defesa do qual todos deviam contribuir, sob liderança americana. Para sua surpresa e de muita gente, a narrativa não colou. O que bastou para ele ir ficando cada vez mais sozinho: depois dos genuínos anti-bushistas, seguiram-se os ratos abandonando o navio (sobretudo vindos dos tradicionais apoiantes dos EUA), à medida que a sua difícil política se complicou. Até chegarmos à caricatura dos últimos quatro anos: qualquer assunto tinha uma resposta, a culpa era de Bush – o Irão nuclear, a crise económica, o aquecimento global… Cheguei a temer que fosse acusado de ter inventado a angina de peito e o óleo de rícino.

As partes do realinhamento reaganiano andam por aí disperas em busca de uma narrativa. Mas para algumas essa narrativa é capaz de chegar mais cedo do que julgam. Antigas solidariedades quebraram-se de vez, mas isso liberta de compromissos incómodos e abre portas para novas solidariedades. E o desaparecimento do fardo de Bush também ajuda.

Não terei saudades do tempo de Bush. Não necessariamente pelo próprio, com quem tive acordos e desacordos essenciais. Mas pela quantidade de pessoas que se permitiu ser profundamente estúpida enquanto ele lá esteve. O estúpido argumento de que é tudo culpa do estúpido de Washington acabou. Está na altura de voltar a falar a sério.

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: