Do símbolo à realidade

(Publicado no jornal Meia Hora, 6/11/2008)

E a América sempre elegeu o seu santo redentor. Para quem olhou a eleição com um certo distanciamento, a esperança é que aquele magnífico país não se tenha enganado, confundindo o símbolo com a realidade. Toda a gente gosta do símbolo: um presidente americano negro, um presidente ocidental negro, algo impossível ainda há umas décadas atrás. Mas agora vem a realidade. Porque o símbolo esgota-se na eleição propriamente dita: a promessa está cumprida, e seria aliás bom que isso servisse para, desde anteontem, acabar com lugares-comuns sobre o racismo fundamental da América. Um país fundamentalmente racista não elegeria este presidente. E se ele foi eleito em grande parte por isso, foi-o também para ser o maior dirigente do mais importante país do mundo, nenhum dos quais (país e mundo) está a viver os seus melhores dias.

Se Obama vier a ser um grande presidente, terá invertido a cronologia que torna os presidentes americanos grandes. Muita gente espera que ele venha a ser isso mesmo, mas todos os grandes presidentes do passado começaram por se apresentar como fundamentalmente divisivos. Não por acaso, todos presidiram a guerras: Lincoln e a guerra civil, Roosevelt e a II Guerra Mundial, Truman e o início da guerra fria, Reagan e a última batalha da guerra fria. E se não morreram no cargo (Lincoln e Roosevelt), acabaram os seus mandatos tremendamente impopulares (a popularidade de Truman em final de mandato era idêntica à do actual presidente Bush). Não foi antes nem imediatamente depois que eles foram vistos como grandes. Foi a História (muitas décadas mais tarde) que os elegeu enquanto tais.

O desafio imediato do presidente Obama será a crise económica nacional e mundial. O seu instinto, bem como o do Congresso (em que se cimentou a maioria democrata), é proteccionista. A própria crise poderá reforçar o instinto: para manter a economia mundial e a globalização em movimento, a América endividou-se para além do razoável. Agora precisa de reverter a situação. O nacionalismo económico espreita, sobretudo se as outras áreas do mundo relevantes (UE, Japão, China e Índia) continuarem pouco abertas ao exterior. Mas tenhamos esperança que nada disto se verifique.

Depois coloca-se o desafio da posição da América no mundo. O instinto de Obama parece apontar para a redução das responsabilidades americanas. Mas a América é a única grande potência ocidental. E um mundo com a América em retracção pode ser um sítio muito pior para se viver.

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