Archive for Outubro, 2008

Um trunfo de destruição maciça

Outubro 20, 2008

É mera curiosidade, mas o Colin Powell que agora é apresentado como um grande trunfo de Obama é o mesmo Colin Powell que em 2003 provou por A+B na ONU que havia armas de destruição maciça no Iraque? Ou seja, a face da “mentira do Iraque” transformou-se em herói da mudança em que podemos acreditar?  Eu sei que a política é uma actividade um pouco estúpida, mas tanto assim?

So can I

Outubro 19, 2008

Pactio Olisipiensis Censenda Est

Outubro 17, 2008

The European Parliament has voted to reinsert the EU’s national symbols: its flag, anthem, motto and public holiday. You will remember that the deletion of these emblems was the sole alteration made to the European Constitution when it was resurrected as the Lisbon Treaty. Now MEPs have voted to overturn the referendum results and, flicking two fingers at their voters, to give these trappings of statehood more exposure than ever. The national anthem, Beethoven’s Ninth, will now be played whenever the European Parliament meets in solemn session, with MEPs expected to stand to attention. I decided, on balance, to postpone my planned protest: given the current global circumstances, it would have looked  trivial. But I did register my dissent, in the 60 seconds provided under the rules, without hesitation, repetition or deviation. The Treaty of Lisbon must be put to the people: Pactio Olisipiensis Censenda Est.

Stand-Up Comedy 2

Outubro 17, 2008

Stand-Up Comedy 1

Outubro 17, 2008

Deve ser isto o fim da História

Outubro 17, 2008

Bendito século XXI… Se fosse no século XX, com uma crise destas proporções, já a esquerda praticamente toda estaria aí a montar a Revolução, pronta a destronar o capitalismo. Agora não. Ontem e hoje ouvi intervenções de Francisco Louçã, Manuel Alegre e Joana Amaral Dias. Todos consideram “indispensável” a ajuda ao sistema bancário. Falam dos pobres (para quem não havia dinheiro) e dos ricos (para quem há) e disto e daquilo, mas é só para fazerem o tradicional número de bobos da corte. No fundo querem o mesmo que os banqueiros, o mesmo que Wall Street: dinheiro que mantenha as coisas essencialmente inalteradas.

Nunca vi a esquerda tão ordeira como agora. Certamente não quererá destruir um sistema onde tem sido tão bem sucedida.

O Estado da crise

Outubro 17, 2008

(Publicado no jronal Meia Hora, 16/10/2008)

A melhor maneira de não entender a corrente crise financeira é criar bodes expiatórios: Bush (porque é estúpido), os mercados (porque são gananciosos) ou o “ultra neoliberalismo” (como já ouvi chamar). Como dizia Maquiavel, trata-se de “não ser digno no crime”, ou, mais popularmente, de sacudir a água do capote. A crise é sistémica e inclui responsabilidades de todos (incluindo eu e o leitor). É claro que os mercados foram os seus instrumentos e não é necessário ilibá-los. Mas também é ocioso pedir mais “Estado” e “regulação”, quando ambos estiveram presentes do princípio ao fim.

Vale a pena começar pelo início: esta é uma crise financeira e bancária, e o sector é provavelmente o mais regulado e intervencionado pelo Estado dos sectores privados. É um sector cujo “produto” (o dinheiro), em primeira instância, é produzido em condições de monopólio pelo Estado, o qual, de resto, define o seu preço arbitrariamente. É também um sector cujas empresas dependem de autorização discricionária do Estado: não se abre um banco como uma loja de ferragens; é o Estado quem autoriza a sua abertura e quem define as condições de operação, impondo regras e regulação muito estritas. Mais: toda a regulação bancária conduz a uma intervenção constante do Estado. Nos EUA, por exemplo, o problema do subprime tem origem em décadas de uma política habitacional cujo objectivo foi garantir a propriedade de uma casa para o maior número, mas através de uma curiosa forma de “desorçamentação”: em vez de o dinheiro sair das contas públicas, passou a sair do mercado de capitais, onde as operações das instituições financeiras eram “garantidas” por entes públicos ou semi-públicos. Mas não se trata de um exclusivo americano: com métodos diferentes, todo o mundo ocidental seguiu a mesma ideia. Não admira, por isso, o trânsito de pessoal entre instituições financeiras e públicas. Hank Paulson é já o segundo secretário do Tesouro vindo da Goldman Sachs. Mas, mais uma vez, não se trata de um exclusivo americano.

Se dependessem apenas das contas públicas, os Estados ocidentais praticamente não conseguiriam fazer políticas sociais. Caso se aplicassem as regras actuariais privadas aos Estados, a Bélgica, a Itália ou o Japão já teriam falido muito antes da Lehman Brothers. Vale a pena perguntar: é o fim do “ultra neoliberalismo” (que ninguém sabe o que seja) ou do Estado-Providência como o conhecemos?

A nova era

Outubro 16, 2008

Sobre o Orçamento do Estado, tenho pouco a dizer. Talvez só isto: os funcionários públicos não são menos do que os milionários financeiros: se salva estes, se os inunda com dinheiro, o Estado deve também fazer o mesmo com os funcionários, talvez mesmo com toda a gente.

A maneira como banqueiros e financeiros imploraram que o gasto público salvasse as suas actividades e a maneira como o Estado foi a correr fazê-lo deu cara de parvo retrospectiva a quem defende a limitação da despesa pública e do tamanho do Estado. Eu, por exemplo…

Selvagem e perigoso

Outubro 16, 2008

Parece que o capitalismo regulado foi ainda mais desregulado do que o desregulado: Goldman Sachs estimates that non-US banks have liabilities of $12 trillion (£6.8 trillion) on dollar balance sheets. The European, British, and Swiss banks make up the lion’s share, and they have used leverage far more aggressively than US banks.

Bonito serviço. Ainda há por aí alguém para insistir na tese da falta de Estado e de regulação?

É preciso ter calma… e fé…

Outubro 14, 2008

Parece que a dita “confiança” regressou. Temporariamente? Definitivamente? Temos de esperar.

Algumas notas de precaução:

1. O comportamento das bolsas não é saudável. Subidas de 5%, 7%, 8%, 12% num só dia quando ainda há uma crise financeira em curso é sinal de duas coisas: primeira, fomos todos (sim, todos, pois é o nosso dinheiro enquanto contribuintes que agora está em jogo) chantageados pelos mercados de capitais, que fizeram birra até obterem o que queriam: promessas da sua salvação praticamente incondicional; segunda, estamos na mão de histéricos, que um dia estão na fossa e no seguinte julgam-se outra vez os melhores condutores do mundo.

2. Como foi dito ali mais abaixo, o importante é mesmo a “confiança”. Na verdade, nenhum dos Estados que se comprometeu a salvar todos os bancos pode efectivamente salvá-los todos, a não ser que regresse aos métodos das rotativas furiosas, típicos da América Latina ou de tempos de guerra. A ideia é acomodar aqueles que vão mesmo precisar (e esses já estão a aparecer) na esperança de que os outros consigam sobreviver por si próprios.

3. Se a “confiança” realmente regressar, vem aí uma inflação de proporçoes difíceis de avaliar: o sistema financeiro está inundado de dinheiro; esse dinheiro neste momento está entesourado; quando começar a ser libertado só pode dar em inflação.

4. Tornando-se agora proprietários da maior parte do sistema financeiro, os Estados ocidentais têm duas hipóteses: ou racionalizam o crédito ou então, contentes com o novo instrumento, multiplicam-no. No primeiro caso, temos uma recessão; no segundo, um desastre latino-americano.

5. Estamos a falar de Estados cujas dívidas públicas andam na maior parte dos casos entre 30% e 170% do PIB. Será bom que todo o dinheiro agora prometido seja recuperado (ou nem chegue a ser gasto). Estes Estados não aguentam uma expansão da dívida pública nas proporções agora prometidas. Ou então aguentam, mas (outra vez) apenas através da sua “latino-americanização”.