Portugal, o euro e a crise

(Publicado no jornal Meia Hora, 30/10/2008)

Numa entrevista dada a semana passada, José Miguel Júdice afirmou que, “se não fosse o euro, Portugal estaria na mesma situação da Islândia”. Já ouvi este argumento semi-verdadeiro a mais do que uma pessoa. Mas talvez valha a pena pensar de outra maneira: se Portugal está numa situação de grande endividamento (daí o paralelo com a Islândia, o único relevante, pois a origem dos respectivos endividamentos é muito diferente), em grande medida deve-o ao euro. Ou seja, se não fosse o euro, já há muito que teríamos sido forçados a corrigir o endividamento, ou nem sequer lá teríamos chegado.

O euro permitiu a Portugal várias coisas: uma, o aumento da credibilidade externa; outra, a valorização da moeda e a redução das taxas de juro; finalmente, o recente grande envidamento externo e a sua aparente irrelevância económica: afinal, em termos monetários, Portugal não passa de uma região de uma das maiores áreas monetárias do mundo – é como se, antigamente, nos preocupássemos com o endividamento da Beira Alta relativamente ao país. Portanto, foi o euro que gerou os incentivos para o endividamento (a valorização da moeda e a redução da taxa de juro) e criou as condições para ele (a credibilidade externa e a integração numa zona monetária extra-nacional). A valorização da moeda tornou-nos pouco competitivos e a redução da taxa de juro favoreceu o endividamento familiar para casas e consumo; a credibilidade externa e a integração na zona euro permitiu tornar o crescimento económico menos relevante para o bem-estar, dado que também permitiu um endividamento que em larga medida o substituiu.

Tudo funciona até haver uma crise séria. Ora, a crise está aí e agora resta ver quais as consequências e a forma como reagimos a elas. Por um lado, as famílias e as empresas vão ter mais dificuldade em satisfazer as suas dívidas e, logo, os bancos também terão dificuldade em satisfazer as suas dívidas aos credores externos; por outro, os próprios credores externos, a braços com dificuldades de pagamentos generalizadas pelo mundo fora, terão menos disponibilidade para financiar o endividamento português. Já aqui se disse que uma das grandes vítimas da actual crise poderia ser o euro. Não se trata de fazer previsões. Trata-se de ver o horizonte de ameaça. E se não é garantido, as ameças são muitas. Sendo que Portugal, como um dos países mais endividados da zona euro, está certamente na calha para ajudar a esse resultado.

Uma resposta to “Portugal, o euro e a crise”

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