E se a Câmara dos Representantes tivesse razão?

(Publicado no jornal Meia Hora, 2/10/2008)

Aviso prévio: escrevo praticamente 24 horas antes de este texto ser publicado. Nos últimos dias, 24 horas podem parecer-se com 24 anos. Não sei que extraordinário evento o terá tornado entretanto irremediavelmente datado.

Mesmo assim, talvez valha a pena perguntar: e se a Câmara dos Representantes dos EUA tivesse tido razão ao chumbar o Plano Paulson? Onde está o pânico e a paralisia? Anteontem, depois do chumbo, as bolsas americanas animaram-se imenso. Porquê? Certamente por duas razões: porque esperam outro plano e porque andaram a fazer pressão por estes dias. Uma coisa é certa, o Plano Paulson era uma imensa oportunidade de negócio para as instituições financeiras: tratava-se de se livrarem de lixo a preço acima do preço do lixo. Era natural que estivessem à espera.

Tanto quanto se consegue perceber no meio do turbilhão de informação, quer o Plano Paulson original quer a versão revista e aumentada pela Câmara dos Representantes não eram totalmente satisfatórios na protecção dos detentores de empréstimos hipotecários e dos contribuintes. Embora melhorando da primeira para a segunda versão, o plano continuava a ser essencialmente um esquema de salvamento mais ou menos incondicional das instituições financeiras. Não surpreende que Wall Street pressionasse para o ver aprovado. Talvez a terceira versão seja mais equilibrada.

Entretanto, aparentemente longe destes eventos, o mercado (com uma mãozinha do Estado) continua a funcionar. É importante perceber uma coisa: o dinheiro (a liquidez) anda por aí. O que acontece é que se tornou demasiado valioso face aos outros activos e ninguém se quer libertar dele a não ser a um preço muito elevado. Mas os seus detentores podem a qualquer altura decidir começar a comprar ou emprestar, desde que achem que a correcção do preço dos activos disponíveis e do valor das empresas já foi suficiente. Sem ninguém reparar muito, o sector vai-se consolidando, com alguns bancos a engolirem outros (como o Citi, nos EUA). E, com ou sem plano, não só isso continuará como aumentarão as falências, sendo que nenhuma das coisas é necessariamente má.

O Estado americano e Wall Street criaram uma situação horrível. O instinto da Câmara dos Representantes é correcto: o dinheiro público não deveria ser gasto a lançar um salva-vidas aos autores deste esquema de Dona Branca de proporções planetárias. Mas não será já tarde de mais para sermos justiceiros?

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