Morrer por Danzig?

(Publicado no jornal Meia Hora, 4/9/2008)

Em Maio de 1939, o pacifista francês de direita Marcel Déat perguntava: “morrer por Danzig?” De facto, quem, em França, estava disposto a combater por uma obscura disputa territorial entre a Alemanha e a Polónia? Quatro meses depois, Hitler entrava na Polónia e começava a II Guerra Mundial; um ano depois, entrava em França e subjugava-a em três semanas.

Em Agosto de 2008, a Geórgia também aprendeu que os americanos e os europeus não estão dispostos a morrer por ela. De nada lhe serviu ter a maior potência militar do mundo como amiga nem candidatar-se à UE e à NATO. As grandes fanfarronadas ocidentais sobre a democracia mostraram o que são, meras fanfarronadas. O comportamento da UE, então, deveria ficar registado para sempre como caso de manual. Na hora da verdade, cada país regressou ao seu “egoísmo” nacional: os países fronteiros à Rússia (Polónia, República Checa, Repúblicas bálticas, Suécia e Finlândia) mais a Inglaterra exigiram firmeza; a França, a Alemanha e a Itália exigiram moderação; e o resto vogou na mais olímpica indiferença. Ou seja, de um dia para o outro, a Europa passou de ser a mais maravilhosa união política da humanidade para uma simples colecção de Estados incapazes de se entenderem sobre ameaças nas suas fronteiras: ontem, éramos todos “europeus”, juntos nesta espantosa aventura; hoje, nem por isso. Não admira que logo a seguir a Rússia decidisse ameaçar a própria UE, através da Polónia. É capaz de ser o próximo país a deixar de ser “europeu”.

Depois disto, será que alguém ainda se lembra do famoso Tratado de Lisboa? Na época das discussões sobre o tratado, quem afirmava a pouca utilidade do texto era logo baptizado de anti-europeísta e outros mimos do género. Esta crise veio mostrar aquilo que eles queriam dizer. Não se trata de não desejar a unidade da UE na defesa e na política externa, trata-se de afirmar a sua impossibilidade: esta colecção de vinte e sete estados pode entender-se sobre o tamanho das bananas e a liberdade de comércio, mas não se entenderá jamais sobre política externa. E para isto só há duas soluções: ou aceita uma tutela externa que defina prioridades estratégicas, como fez a América (e os europeus aceitaram) nos últimos sessenta anos, ou regressa à velha desunião europeia. Nenhuma solução é boa? Paciência. Eu sei qual prefiro.

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