Quando eu era novo

(Publicado no jornal Meia Hora, 24/7/2008)

Quando eu era novo também havia a crise. Aliás, toda a minha adolescência foi passada em crise. O que faz duas: a crise própria da idade e a crise económica, social e política do país de 1975 a 1986. De tal modo, que não fui preparado para em adulto aproveitar as oportunidades dos anos de ouro de 1986 a 1992. Os meus anos de crise fazem-me rir da crise actual. Veja-se os concertos pop.

Quando eu era novo, havia apenas um “festival de Verão”: a Festa do Avante. Muitas vezes rumei ao “Jamor” ou à “Ajuda”, onde vi os The Band ou os Dexy’s Midnight Runners. Era um óbvio sinal de subdesenvolvimento que a única instituição capaz de promover eficientemente concertos de música capitalista decadente fosse o PCP. Quando eu era novo, qualquer banda pop de vigésima categoria era convertida numa das melhores do mundo, simplesmente porque não havia mais nenhuma a vir a Portugal – assim de repente, lembro-me dos The Tubes ou dos Dr. Feelgood… Se exceptuarmos os The Police, nunca por cá passaram bandas verdadeiramente importantes da época, como Patti Smith, os The Smiths, os New Order ou os Sex Pistols.

Veja-se agora as dezenas de “festivais de Verão” deste Verão. No espaço de pouco mais de uma semana, por cá passaram históricos que em adolescente ansiei ver quase todos os dias: Bob Dylan, Neil Young, Lou Reed e Leonard Cohen. Em boa parte por causa dos dois primeiros, vi talvez umas quatro vezes The Last Waltz, de Martin Scorsese. Aos históricos, juntem-se as bandas menos conhecidas, mas que fazem a música interessante da actualidade: The National, Vampire Weekend, Hercules & Love Affair, Editors, Au Revoir Simone… O paroxismo desta avalanche deu-se quando Lou Reed e Leonard Cohen tocaram em Lisboa na mesma noite de sábado passado. Peço desculpa, mas isto é um sinal de que o país sempre se desenvolveu nos últimos anos. Estaremos em crise, mas vocês não sabem o que é uma verdadeira crise.

O moralista que existe em todo o colunista deveria agora lançar-se numa diatribe contra estes hábitos de “consumo conspícuo”, zurzindo uma população que desperdiça dinheiro num país perpetuamente miserável como é o nosso. Poupo-me o esforço: os concertos foram bons, o tempo está óptimo. É gozar as férias, porque dá a impressão de que o Inverno e o ano que vem vão ser bastante duros.

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