Tudo vale a pena?

(Publicado no jornal Meia Hora, 19/6/2008)

Se há coisa que irrita é o histerismo europeu. O pacato cidadão passa o tempo a ouvir que a “Europa tem de ir para a frente”, que a “Europa não pode parar” ou em alternativa que a “Europa está em crise”, que “o projecto europeu está ameaçado”… Então quando acontece um referendo negativo a qualquer proposta que esteja na mesa, como aconteceu agora na Irlanda a propósito do Tratado de Lisboa, parece que as meninas viram um rato. Por estes dias, deram mesmo em ameaçar a Irlanda de exclusão da União Europeia.

Como é evidente, o Tratado de Lisboa não é o único caminho para a Europa. Não parece sequer um texto muito útil e, como se vem vendo, desde a sua anterior encarnação enquanto Constituição Europeia que tem mesmo dado mais trabalho do que se nunca tivesse existido. É claro que por detrás dos dois tratados se esconde a ideia da criação da Europa enquanto unidade geopolítica coesa e autónoma da tutela americana. Mas eis aí uma proposta bastante discutível. Quais são os seus efectivos méritos? O actual entendimento com a América dá larga margem de manobra aos europeus. A América não se pode dar ao luxo de perder a Europa como aliada, por muito que esta não tenha autonomia de defesa. A Europa é só a maior área geográfica e populacional democrática e também a maior das áreas prósperas do mundo. No dia em que a América abdicasse de tutelar a Europa, ela com facilidade ficaria refém de ameaças russas. E uma área de influência russa do Atlântico ao Pacífico seria um pesadelo americano. E seria também um pesadelo para a Europa rica e democrática. Como espaço geopolítico informe que é, o que prefere a Europa, a tutela americana ou a russa?

Há quem, a estas duas alternativas, prefira a plena autonomia europeia. Mas é aqui que o passado europeu traz algumas lições. Sempre que alguém quis unificar o continente, o resultado foi a violência. A Europa é um cemitério de tentativas de unificação, do Papado a Hitler, passando pelo Sacro Império Romano, os Habsburgos ou Napoleão. Aliás, se viveu em paz nos últimos sessenta anos, deve-o a Europa em grande medida à tutela americana. É preciso delegar em alguém exterior ao continente o poder de federar para a federação ser aceitável. Claro que desta vez poderia ser diferente. Mas valerá a pena arriscar?

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