Onde estaria a diferença?

(Publicado no jornal Meia Hora, 26/6/2008)

O PSD passou o fim-de-semana entretido com a “credibilidade” reencontrada. Talvez por isso, a sua nova presidente encerrou o congresso com uma intervenção muito pouco credível. Mas nessa actividade de feitiçaria a que se costuma dar o nome de política praticamente tudo é possível. Julgo mesmo que, em política, uma das funções da “credibilidade” será permitir-nos não sermos credíveis.

Senão vejamos. A nova presidente do partido criticou o governo por se ter transformado apenas numa “máquina eficaz de cobrança de impostos”. Tem a sua graça, vindo da inventora dessa mesma máquina. Aliás, é interessante ver a presidente do PSD criticar a política orçamental (e consequentemente económica) agora seguida pelo PS, tendo sido ela quem a inaugurou nos idos de 2002. Graças à comédia do ano de 2005, aquela em que nos divertimos a tentar saber se o défice chegaria mesmo a 6% do PIB, o PS afirmou o fracasso da política anterior para melhor a continuar a seguir. Agora fora de brincadeiras: se governasse, o PSD seguiria uma política orçamental diferente da actualmente seguida pelo PS? Ainda por cima, ao mesmo tempo que critica a sinistra “máquina eficaz”, a presidente do PSD considera uma “irresponsabilidade” a descida do IVA de há uns meses atrás. Ou seja, o governo é criticado por ser a tal “máquina eficaz” e por não ser. O que está em questão na actual política orçamental do governo não é apenas a deste governo mas também a do infausto gabinete em que a presidente do PSD foi ministra das Finanças. Como é evidente, então como agora, o défice precisava de uma solução. O que muita gente sempre perguntou foi se este era o caminho.

As más notícias económicas nacionais e internacionais abrem uma óbvia janela de oportunidade para a vitória do PSD “credível” (que aliás não reapareceu por acaso). Não por seu grande mérito, mas porque, com uma situação económica em permanente deterioração, os eleitores poderão tender a dar o benefício da dúvida ao próximo. Claro que também poderão não dar. Até porque caberá sempre perguntar: o PSD no governo, para quê? Afinal, o actual governo é bastante “credível”. Mesmo que o PSD ganhe as eleições de 2009, uma pergunta precisa de resposta: onde estaria a diferença? Não parece fácil responder.

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