A bushização de Obama

(Publicado no jornal Meia Hora, 3/7/2008)

Barack Obama entrou em processo de bushização. Há umas semanas, afirmou recusar a partição de Jerusalém, uma reivindicação israelita que nem o próprio Presidente Bush defende. Depois, fez ruídos suspeitos sobre a permanência no Iraque, indicando que estava pronto a abandonar o seu programa de retirada. Há dias, deu em louvar as medidas de “eavesdropping” em tempos pedidas (e obtidas) pelo Presidente Bush: a precedência do executivo sobre os tribunais no uso das escutas telefónicas a suspeitos de terrorismo. Entretanto, permitiu-se abdicar do financiamento eleitoral público e até apareceu a defender o uso do etanol quando se sabe que a sua campanha é financiada por empresas com interesses no sector. Finalmente, horror dos horrores, surgiu a defender a pena de morte – não apenas a pena de morte, mas a pena de morte para autores de crimes que não são homicídio, no caso a violação de crianças. Não admira que, nesse verdadeiro jornal de parede da correcção política portuguesa que são as setinhas da última página do Público, a sua setinha tenha aparecido uma vez para o lado, e não para cima como é hábito.

De facto, já estava a parecer esquisito que um candidato à presidência americana fosse o verdadeiro namoradinho do Bloco de Esquerda. Mas agora, conseguida a nomeação graças à esquerda do Partido Democrático, trata-se de conquistar um eleitorado autenticamente nacional. A “esperança”, a “mudança” e as longas dissertações mais ou menos vazias, em estilo visionário, estavam muito bem para a clientela restrita do partido. Agora é preciso roubar votos ao adversário do outro lado do espectro político. Vai ser a história da campanha de Obama: o equilíbrio instável entre meter no barco o eleitorado centrista, mais preocupado com a segurança dos EUA e problemas políticos concretos, e manter acesa a chama da esquerda da utopia.

Só que isto levanta a questão: quem é o verdadeiro Barack Obama? O sinistro Mr. Obama que só aparece à noite? Ou o encantador Dr. Barack da luz do dia? O Bush das últimas semanas? Ou o Manuel Alegre dos meses anteriores? Se me é permitido, acho que estará mais próximo do primeiro, mesmo se muitíssimo diferente. Caso venha a ser eleito, se calhar ainda vamos ter saudades do original.

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