Pensar com os pés

(Publicado no jornal Meia Hora, 12/6/2008)

É certo e sabido: de dois em dois anos, quando há campeonato Europeu ou Mundial de futebol, uma série de almas agita-se, preocupada com o povo alienado pelo chuto na bola. E lá nos explicam que é um sinal do nosso atraso e que vivemos uma grande crise e que a bola só serve para não resolvermos a crise e que é o pão e o circo, como no tempo dos romanos, e que nem na altura de Salazar se ligava tanto ao futebol e que o governo agradece…

Vamos lá a ver: o Europeu ou o Mundial acontecem apenas de dois em dois anos e duram um mês. O atraso português e a actual crise económica começaram antes do Euro 2008 – o atraso português começou mesmo antes de alguma vez se realizar qualquer campeonato europeu. Não será atribuir demasiada responsabilidade ao futebol? Basta aliás ver o que se passa nos outros países: de Stetin, no Báltico, a Huelva, no Atlântico, anda tudo doido com a bola. Atrevo-me até a sugerir que sinal de atraso talvez seja tanta gente a queixar-se da atenção dedicada ao futebol – esse não é, efectivamente, um género intelectual tão frequente nos países desenvolvidos, que vivem este tipo de eventos descomplexadamente. O argumento implícito dos queixosos parece ser o de que, no espaço de tempo entre os Europeus e os Mundiais de futebol, andamos por aí a resolver os problemas do país. A ser verdade, eis o que diz muito mal dos esforço inter-campeonatos. Afinal, houve dois anos desde o último Mundial (e quatro desde o Euro) para resolver o atraso económico português (ou a crise das finanças públicas), sem qualquer sucesso. Diga-se em abono da verdade que quando se olha para certas propostas visando desenvolver o país ou resolver a crise, se fica convicto do carácter benigno do futebol.

Claro que ninguém é obrigado a gostar de futebol. Deve até ser bastante irritante não gostar de futebol neste ambiente quase unanimista em que, do taxista ao Presidente da República, toda a gente está com os “nossos heróis”. Mas o que se dispensava era a lição de moral. É um mau género político, literário e intelectual. O país não é atrasado por causa do futebol. A crise não foi causada pelo futebol. Não vale a pena pensar com os pés.

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