Archive for Abril, 2008

Bingo!

Abril 14, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 10/4/2008)

Um ano e meio para as eleições afinal não é assim tanto tempo e convém satisfazer toda a gente. Começa-se pelos impostos. O governo baixou o IVA e já prometeu futuras reduções, não especificadas, para o ano. Para além disso, a administração fiscal começou a andar menos acirrada na perseguição às dívidas. Se o objectivo é ganhar eleições, não seria possível continuar na sanha tributária dos últimos dois anos. Acresce que, na actual situação de crise, há quem diga que é isto mesmo que deve ser feito, para “estimular” a economia. Foi o próprio FMI quem o afirmou. Aproximou-se o orçamento do equilíbrio, deu-se um ar de grande competência, e agora solta-se um bocadinho o torniquete, para acalmar a classe média.

Depois, satisfaz-se a esquerda. Não é difícil. Recua-se no fecho de urgências e muda-se um pouco a política de saúde, reabilitando os notáveis méritos do SNS, a pedido de Manuel Alegre. Acrescentam-se umas causas “fracturantes”, como o fim do divórcio litigioso (esse tema candente), e põe-se a esquerda muito entretida a celebrar mais um fantástico avanço civilizacional e outra humilhação para a horrenda Igreja Católica.

A seguir, inaugura-se a época das grandes obras públicas, para satisfazer os “empresários”. Multiplicam-se as pontes, as auto-estradas e as barragens, numa magnífica demonstração da política da betoneira. Bancos e escritórios de advogados também agradecem. Para além de que é igualmente suposto, em princípio, estimular a economia e reduzir o desemprego, como bem sabe qualquer presidente de câmara municipal.

Ou seja, com uma mão dá-se à classe média, com outra à eterna esquerda e com uma terceira aos patrões. Se acrescentarmos umas migalhas oferecidas a intelectuais de direita por via do Ministério da Cultura, temos o cenário montado para uma santa paz no próximo ano e meio. Bingo! Nem nos tempos da União Nacional, da Acção Escolar Vanguarda e do SNI se conseguiu tamanha harmonia. Há a chatice dos professores, é verdade, mas provavelmente daqui para a frente pouco mais se fará. O plano é bom. A oposição é má. Resta saber se será suficiente para reeditar a maioria absoluta. Já esteve mais longe.

Definição da finança moderna

Abril 6, 2008

Dar muito dinheiro para construir prédios para os pobres. Chamar-lhe engenharia financeira. Dizer que vai correr tudo bem. Quando correr mal, nacionalizar uns bancos.

Civilização

Abril 4, 2008

No Quénia, massais e kalnejins combatem ao arco-e-flecha.

Regras da guerra: os combates não podem decorrer todos os dias, não podem ter lugar à noite e o corpo-a-corpo é proibido. As flechas não podem ser lançadas para ferir, mas apenas para matar. Desde Janeiro, altura do início dos combates, já morreram 20 homens. Os massais reclamam pastagens ocupadas pelos kalnejins, sendo esse o casus belli.

Nos dias em que não se combatem, convivem amenamente uns com os outros.

Afectos e chatices

Abril 4, 2008

(publicado no jornal Meia Hora, 3/3/2008)

Em matéria de costumes, dão-se discussões terríveis a propósito de nada ou quase nada. Passou-se com o aborto: quando ele deixou de ser um fenómeno social importante (pelos baixos números envolvidos, resultantes da generalização dos contraceptivos), a esquerda decretou a libertação do país pela sua liberalização e a direita a entrada numa nova idade das trevas. Repete-se agora com o fim do divórcio litigioso, que o PS pretende introduzir. Diz-se que isto satisfaz aqueles mais à esquerda, e que o PS precisa deles. É capaz de ser verdade. Por outro lado, direita e Igreja gritam contra o terrível ataque à instituição do casamento.

Pobre instituição do casamento, onde ela já vai… Cada vez menos gente se casa, e dos que casam cada vez mais se divorciam. A verdade é que o casamento tem hoje pouca utilidade. Outrora, era por ele que duas vidas se juntavam para reunirem recursos, providenciarem assistência mútua e enquadrarem social e moralmente o resultado dessa união: os filhos. Mas isso era no tempo em que, rodeados por um mundo ameaçador, sem um Estado que assistisse nas necessidades, poucas coisas restavam para proteger a não ser os cônjuges e os filhos adultos. O crescimento económico e o Estado-Providência tornaram o casamento e os filhos dispensáveis e até onerosos.

Alberto Martins, líder parlamentar do PS, diz que a proposta realça a “conjugalidade assente nos afectos”. Mas o casamento tradicional pouco tinha que ver com os “afectos”. O que ele gerava era um conjunto de obrigações (morais, mais do que legais) no apoio ao cônjuge contra as dificuldades do mundo. Se, hoje, uma tragédia acontecer a um deles, os “afectos” não garantem assistência, podendo mesmo acabar ali: quem nutre “afecto” por um peso morto que nos calhe em sorte depois de um acidente? Mais vale, muito humanamente, entregá-lo a uma “instituição especializada”.

Numa sociedade em que o Estado substituiu instâncias autónomas como a família, o casamento é uma gracinha descartável. O fim do divórcio litigioso não ameaça a instituição do casamento, porque ela já praticamente não existe. Continuam a existir casamentos, mas pouco têm que ver com a instituição do casamento. O fim do divórcio litigioso apenas facilita a vida a quem não quer chatices.