Agora escolha: bestiais ou bestas?

(publicado no jornal Meia Hora, 17/4/2008)

Parece que afinal o mundo da economia e da finança não é tão diferente do futebol. Os treinadores costumam queixar-se por passarem, entre uma semana e a outra, de “bestiais a bestas” no coração dos adeptos. É o que está acontecer com Alan Greenspan, o antigo Presidente do Conselho de Governadores do Sistema da Reserva Federal. Ainda há meses ele era o “mago” que conseguia, apenas molhando o dedo e pondo-o ao vento, descobrir a direcção dos mercados, ou ler os números da produtividade nas folhas do chá. Entretanto, terá passado de bestial a besta, pois se antes era o grande artífice do crescimento económico americano, agora passou a maior responsável pela crise económica e financeira.

Dá-me a impressão de que nem uma nem a outra coisas deverão ser exactamente verdadeiras. Por um lado, o sistema económico em que vivemos é feito destes ciclos. Este não é o primeiro ciclo negativo nem será o último. Quando se vêem declarações apocalípticas a propósito da crise vale a pena lembrar os anos 30 ou 70, quando se discutia seriamente sobre se essas não seriam as crises finais do capitalismo, no lugar do qual nasceria o comunismo. Entretanto, o que é feito do comunismo? Nem a prosperidade anterior nem a actual crise dependeram apenas da “magia” de Greenspan. A economia americana mantém virtualidades que certamente voltarão a manifestar-se.

Mas esta crise teve qualquer coisa de especial, como o demonstra a escala de certas operações de salvamento das autoridades monetárias. Coisa que se liga com a quebra de um princípio essencial do dito sistema, o de que os líderes económicos merecem ser premiados pelos riscos que tomam mas devem também sofrer as consequências dos seus erros. Os actuais banqueiros e financeiros, sempre muito machos a explicar aos outros que isto da finança é para homens de barba rija e que toda a gente tem de sofrer as mais diversas desagradáveis consequências, quando chegou a sua vez de sofrer as consequências, começaram logo a correr como meninas histéricas a abrigar-se nas saias do Estado. Queixam-se agora de que vem aí uma nova idade de intervenção estatal paralisadora. É muito provável. Mas quem nos meteu lá dentro não foram os comunistas, os inimigos do capitalismo ou sequer Greenspan. Foram eles próprios. 

 

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