Bingo!

(Publicado no jornal Meia Hora, 10/4/2008)

Um ano e meio para as eleições afinal não é assim tanto tempo e convém satisfazer toda a gente. Começa-se pelos impostos. O governo baixou o IVA e já prometeu futuras reduções, não especificadas, para o ano. Para além disso, a administração fiscal começou a andar menos acirrada na perseguição às dívidas. Se o objectivo é ganhar eleições, não seria possível continuar na sanha tributária dos últimos dois anos. Acresce que, na actual situação de crise, há quem diga que é isto mesmo que deve ser feito, para “estimular” a economia. Foi o próprio FMI quem o afirmou. Aproximou-se o orçamento do equilíbrio, deu-se um ar de grande competência, e agora solta-se um bocadinho o torniquete, para acalmar a classe média.

Depois, satisfaz-se a esquerda. Não é difícil. Recua-se no fecho de urgências e muda-se um pouco a política de saúde, reabilitando os notáveis méritos do SNS, a pedido de Manuel Alegre. Acrescentam-se umas causas “fracturantes”, como o fim do divórcio litigioso (esse tema candente), e põe-se a esquerda muito entretida a celebrar mais um fantástico avanço civilizacional e outra humilhação para a horrenda Igreja Católica.

A seguir, inaugura-se a época das grandes obras públicas, para satisfazer os “empresários”. Multiplicam-se as pontes, as auto-estradas e as barragens, numa magnífica demonstração da política da betoneira. Bancos e escritórios de advogados também agradecem. Para além de que é igualmente suposto, em princípio, estimular a economia e reduzir o desemprego, como bem sabe qualquer presidente de câmara municipal.

Ou seja, com uma mão dá-se à classe média, com outra à eterna esquerda e com uma terceira aos patrões. Se acrescentarmos umas migalhas oferecidas a intelectuais de direita por via do Ministério da Cultura, temos o cenário montado para uma santa paz no próximo ano e meio. Bingo! Nem nos tempos da União Nacional, da Acção Escolar Vanguarda e do SNI se conseguiu tamanha harmonia. Há a chatice dos professores, é verdade, mas provavelmente daqui para a frente pouco mais se fará. O plano é bom. A oposição é má. Resta saber se será suficiente para reeditar a maioria absoluta. Já esteve mais longe.

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