A guerra civil verbal

(Publicado no jornal Meia Hora, 13/3/2008)

A actual democracia espanhola é o franquismo democratizado. Não houve por lá uma ruptura ao género dos nossos 25 de Abril e PREC, mas antes, nas palavras de um ideólogo do franquismo tardio, uma transição “da lei à lei”. Por isso sobram ainda por lá tantos sinais do regime autoritário. Enquanto cá se arrancaram placas de rua, por lá sobrevivem estátuas de Franco e o mais espectacular memorial nacionalista da guerra civil, o Vale dos Caídos. Enquanto cá desapareceram quase todos os vestígios do regime anterior, por lá sobrevivem no ordenamento constitucional e político muitas exigências feitas pelo franquismo para proporcionar a transição. É o caso do preceito constitucional da nação “una” como também é o ainda crucial papel político e social da Igreja Católica.

Por tudo isto, a esquerda espanhola viveu durante muito tempo uma sensação de derrota perpétua: perdeu na guerra civil, perdeu durante o franquismo e perdeu, finalmente, na democratização. O governo de Zapatero foi o primeiro a querer enfrentar a humilhação latente, pondo em causa aspectos muito importantes do legado da transição, com as políticas autonómicas e a revisão da “memória histórica”. É legítimo, trinta nos depois da transição, querer rever alguns dos seus aspectos. Mas também é legítimo não os rever, como pretende o PP, compreensivelmente orgulhoso de um processo modelar de passagem à democracia.

Em larga medida, foi isto que esteve em causa nas eleições espanholas de domingo. Como já acontecera durante os últimos quatro anos, a Espanha dividiu-se em metades que se opõem com uma violência inusitada. Não por acaso, fala-se por lá de “guerra civil verbal”. As eleições revelaram a continuação da divisão. O PSOE ganhou, mas sem maioria absoluta e esvaziando a restante esquerda (nacional e autonómica), que votou “útil” de forma maciça. Por sua vez, o PP absorveu o eleitorado moderado (mesmo socialista) e cresceu mais do que o PSOE. Quem viu Rajoy discursar na varanda da Calle Génova julgou estar a ver um vencedor. O PSOE tem agora a oportunidade de se reaproximar do centro e o PP de ser mais flexível na sua leitura do quadro constitucional saído da transição. Mas ambos têm também a oportunidade de continuar a guerra civil verbal. A escolha é deles.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: