Falta de comparência

(Publicado no jornal Meia Hora, 6/3/2008)

Na falta de oposição, a esquerda parece ter regressado a um daqueles cíclicos períodos de mortificação identitária em que discute quem é e não é do clube, quem merece fazer parte dele e o que significa fazer parte dele. Tudo terá começado com Manuel Alegre e o seu lamento de que “já não se revia neste PS”. E continuou por muitos outros lados: ainda no outro dia a antiga secretária de Estado da Educação de Guterres, Ana Benavente, demoliu a política educativa do governo, para logo a seguir o actual secretário de Estado da Educação demolir a política educativa de Guterres. E a coisa continua pelas páginas dos jornais. Vital Moreira discute como pode a modernização ser de esquerda. Rui Tavares não exclui a possibilidade de o governo ser de esquerda. E aqui no Meia Hora, Nuno Ramos de Almeida explica que um governo de esquerda numa sociedade como a nossa nunca será bem um governo de esquerda. Pouco importa que quando a esquerda governou em sociedades que a própria esquerda certificou como sendo de esquerda (digamos, a URSS ou Cuba, para dar uns exemplos) a experiência tenha sido horrível. E pouco importa também que estas digressões intelectuais só sejam possíveis porque hoje existe um governo de esquerda bem sucedido. Governasse a direita e já a esquerda se teria unido naquele frentismo anti-fascista (ou anti-liberal: é a mesma coisa) de que também gosta.

A verdade é que, como não tem mais nada que fazer, a esquerda se pode permitir a este exercício de auto-flagelação. Nada, à direita, ameaça o seu pacato reinado corrente. O PSD parece apostado em fazer uma anedota de si próprio todos os dias. O CDS lá vai trabalhando muito, mas sem direcção definida. Convém perceber que a responsabilidade é exclusiva da própria direita, que falhou em vários momentos: falhou quando governou com Barroso e Portas; falhou depois, quando governou sob tutela do Presidente Sampaio, com Santana; falhou quando não soube reivindicar para si a vitória de Cavaco; e falha quotidianamente na oposição, ao não saber propor uma alternativa coerente ao governo. A falta de comparência da direita ainda vai levar a esquerda a dividir-se tanto que o PS se arrisca a não ter maioria absoluta nas próximas eleições. Será interessante ver então a quem isso aproveita.

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