O filho pródigo

(Publicado no jornal Meia Hora, 24/1/2008) 

Foram muitas, nas últimas semanas, as oportunidades fotográficas para mostrar o Presidente Bush entre beduínos: um homem impecavelmente vestido com o tradicional fato ocidental de duas peças, sorrindo e beijando na face uma sucessão de árabes de keffieh. Bush repetia o périplo de qualquer presidente americano junto dos monarcas do Golfo Pérsico, os grandes fornecedores de petróleo da América desde os anos 30. A novidade estava no facto de o fazer apenas à última da hora, quando está prestes a sair. Eis o mais claro sinal do realinhamento “realista” da política externa dos EUA.

Bush começou o seu segundo mandato promentendo “estimular o crescimento de instituições democráticas em qualquer nação e cultura, com o propósito último de acabar com a tirania no nosso mundo”. Em vez de cortejar monarcas semi-despóticos, velhos aliados da América, desprezou-os. Lançou-se no projecto de “democratização” do Médio Oriente, esperando que o Iraque desse o exemplo. Agora, como um adolescente incapaz de lidar com a sua própria rebeldia, regressou a casa e (tal como o filho pródigo) foi bem recebido. Como dizia um jornalista saudita durante a visita de Bush ao reino, “é uma pena, na realidade uma tragédia, que Bush tenha decidido visitar-nos no seu último ano na presidência. Imagine-se o que teríamos conseguido fazer em 2002” – antes do Iraque, note-se. O novo “realismo” chegou mesmo ao ponto de o Presidente tirar da cartola o truque definitivo para ficar bem na fotografia: mais um plano de paz para o conflito israelo-árabe. São já sessenta anos de planos, sem qualquer êxito. Como já toda a gente percebeu, os ditos planos visam precisamente nunca resolver o conflito.

É interessante que o novo “realismo” surja numa altura em que o Iraque melhora muito. John McCain reapareceu como favorito nas primárias porque a ele deixou de estar associado o aspecto negativo da guerra do Iraque, que sempre apoiou. Mas a guerra do Iraque, como se costuma dizer, não tem solução militar. Mesmo que seja ganha militarmente, foi perdida politicamente há já muito tempo no mundo ocidental. Mesmo que o Iraque se “democratize”, a “democratização” do Médio Oriente acabou. A normalidade, para o bem e para o mal, está de volta.

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