O caso das criancinhas desaparecidas

Gosto muito de Caldas da Rainha. É uma terra muito bonita que tem um parque muito catita. Com cisnes. Os cisnes passeiam-se devagar pela água do lago. As criancinhas correm brincam nas áleas do jardim. Se os cisnes trocassem com as criancinhas e viessem patinhar no seu andar baloiçado para o jardim, as criancinhas podiam (sem o perigo de em tal convívio aprenderem a grasnar) passear então no lago, o que lhes era um prazer, julgavam. As que soubessem nadar ou tivessem bóia adequada à cintura, vogavam. As outras iam logo ao fundo e nunca mais ninguém as via porque o lago tem um abismo que dá para a vala-comum. Por isso, às vezes, quando os cisnes sobem a terra, muitas muitas criancinhas descem ao fundo, vão parar à Lagoa de Óbidos pelos esgotos da cidade e dali ao vasto mar. Se meninas, transformam-se em sereias; se rapazes, em rochas modeladas, em duros querubins. Esta a razão por que nos roteiros turísticos lá vem indicado a normando que Caldas da Rainha é a terra onde desaparecem mais criancinhas. Todos os forasteiros o sabem; os indígenas é que fingem disfarçar.

Gosto muito de Caldas da Rainha. É uma terra muito bonita com um parque muito catita. Ah, também tem uma mata muito bonita com plátanos, mas fica mais acima. Tem uma igreja muito velha. Tem gente muito velha como todas as terras de província e gente que parece gente. Gosto muito de passear no parque das Caldas. Tem árvores flores um cinema muito velho um museu quase novo. Caldas da Rainha tem uma grande categoria: é a terra onde melhor se caga porque é a terra onde melhor se come. Vem mesmo gente de muito longe (de Lisboa, de Setúbal, das Frâncias, das Alemanhas e doutros lados muitos) para experimentar. Às vezes, comem mal e por vingança vão cagar a outro sítio; nessas altura, os caldenses ficam muito tristes muito (direi?) quase envergonhados e ou melindrados porque o segredo da abundância e excelente qualidade das produções hortícolas e frutíferas das jeiras dos arrabaldes que abastecem o mercado é a alta muito qualidade dos estrumes caldenses. Os caldenses quando cagam guardam a merda toda na cabeça e só a despejam para uns caldeirões que os matarroanos vêm depois buscar em carrocitas puxadas à mão ou por gericos quando está a abarrotar e algum turista de passagem repara nisso.

Gosto muito de Caldas da Rainha. Ali me confessei comunguei crismei guiado sugestionado engodado por cavacas e trouxas d’ovos pela mão terna e fanática de uma velha que usava pêra e bigode. Era horrorosa. Achava-me bonito. Coitada, já morreu (antes ela que eu). Ali aprendi a andar de bicleta empurrado amparado pela mão ainda firme do meu Pai que era baixinho careca e usava capachinho e muito meu amigo, coitado já morreu (antes ele que eu).

Gosto muito de Caldas da Rainha. É uma terra, etc. […]

 Luiz Pacheco, “O caso das criancinhas desaparecidas”, Exercícios de Estilo.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: