Archive for Novembro, 2007

Grandes planos

Novembro 23, 2007

(publicado no jornal Meia-Hora, 22/11/2007)

De acordo com uma notícia de segunda-feira passada, o líder do PSD tem planos, e não são pequenos. Até parece que já ouço as acusações de temeridade. É que Menezes propõe-se fazer algo de muito grande: Menezes propõe-se ganhar a Junta de Freguesia de Caldas de São Jorge, em Santa Maria da Feira. Segundo ele, trata-se de “castigar de forma irreversível o governo do PS”: votar no PSD em Caldas de São Jorge “é também votar no PSD em 2009”. Segundo nos explica, Caldas de São Jorge será apenas a primeira vitória de um ciclo que conduzirá inevitavelmente o PSD ao governo nacional. Eis o líder que foi apresentado com temor como o “populista” que ia transformar radicalmente o PSD. O líder que, no seu primeiro discurso enquanto tal, propôs nada menos do que uma “nova Constituição” para o país. Onde começou e tão alto que já vai.

É fascinante o fluxo de ideias notáveis que quotidianamente brota do PSD. Talvez se pudesse pensar que o PSD devesse ser o protagonista de uma série de propostas arrojadas para alterar as condições insatisfatórias do sistema de educação, do sistema de saúde, do sistema de segurança social, para não falar de uma solução sustentável para as finanças públicas. Não, o PSD visa muito mais alto: conquistar a Junta de Freguesia de Caldas de São Jorge. Haverá quem ridicularize o plano, mas a verdade é que se trata de uma claríssima aplicação do moderno mote: “pensar ao nível global, actuar ao nível local”.

O candidato do PSD em Caldas de São Jorge oferece um programa espantoso, cuja réplica a nível nacional constituirá uma evidente fórmula de sucesso: “colocar ecopontos em toda a freguesia, passadeiras em locais perigosos, recuperar o parque escolar e mexer na sinalética”. A transição para o plano nacional é óbvia. A segurança social ameaça ruptura? A resposta é evidente: “colocar ecopontos” em todo o país. Há meio milhão de pessoas em fila de espera nos hospitais? Muito fácil: basta “mexer na sinalética”. Quem começava a recear a perpetuação de Sócrates e do PS no governo vê agora abrir-se um esperançoso horizonte alternativo. Afinal, há um partido disposto a ir ao mais fundo dos fundos. Um partido disposto a fazer o que muitos tentaram mas jamais atingiram: um partido disposto a “mexer na sinalética”.

“Get off your butt and join the Marines”

Novembro 22, 2007

Intelligent design

Novembro 21, 2007

Vem hoje em vários jornais uma notícia interessante: a de que um grupo de cientistas japoneses terá conseguido obter células estaminais a partir da pele, dispensando portanto o habitual método da produção e destruição de embriões. Lembre-se que há um debate em torno da obtenção de células estaminais que até já envolveu o papa e o presidente dos EUA (os dois contra a destruição de embriões, por razões parecidas às que também os opõem ao aborto). Muita gente naturalmente acusou-os de serem bárbaros por impedirem a cura de doenças só curáveis através da manipulação de células estaminais. A comprovarem-se estas notícias, já não vai ser preciso continuar a acusá-los. Mas também é provável que ninguém se volte a interessar pelo assunto: se não mete fetos, nem o Bush nem o papa…

Douce France 2 (com o patrocínio do Institut Franco-Portugais)

Novembro 21, 2007

Douce France 1 (com o patrocínio do Institut Franco-Portugais)

Novembro 21, 2007

Uma pessoa de propensão conservadora alegra-se naturalmente com o facto de todos os anos a França ter o seu Maio de 68. Na verdade, o que seria a França sem a sua dose anual de manifestações de estudantes e funcionários públicos? Acima de tudo, trata-se de uma tradição agora velha de praticamente 40 anos (é para o ano pessoal, toca já a preparar os artigos evocativos). Porque, na verdade, o Maio  de 68 é quando um homem quiser.

Desapontamentos, só do lado dos comentadores portugueses, que este ano ainda não se angustiaram sobre se a revolução ainda faz sentido e qual o papel dos intelectuais franceses no mundo. Talvez para a semana. Ou então para o ano.

Serge et Brigitte Lichtenstein

Novembro 19, 2007

Outra vez?

Novembro 15, 2007

(Publicado no jornal Meia-Hora, 15/11/2007) 

Acho que foi o ano passado que o fascismo esteve para regressar a Itália. Não me lembro porquê, mas governava então a direita (Berlusconi, mais precisamente), o que é sempre motivo para a esquerda repetir que o fascismo está de volta. Só que nunca Berlusconi sonhou em fazer algo de vagamente parecido com as mais recentes medidas da esquerda que agora governa a Itália. A história é horrível mas simples: a mulher de um alto oficial da marinha foi violentada e assassinada por um cigano romeno, dos muitos que pululam pelas ruas de Itália e nós também podemos ver por cá. Perante o horror público, o governo decidiu que o problema era dos ciganos romenos em geral, pelo que fez passar no parlamento uma lei permitindo a deportação de estrangeiros “suspeitos” de perturbar a “segurança pública”. Num estado de direito todos são inocentes até prova em contrário. A lei inverte a lógica: os estrangeiros (ciganos romenos) são suspeitos sem sequer conseguirem provar o contrário. É típico da esquerda: vive tão convencida da sua razão que quando toma medidas não pára um segundo.

Diga-se em abono da esquerda que a direita italiana também não se tem portado melhor. O que levanta um problema, não apenas sobre a Itália mas sobre a Europa em geral. Tem-se expandido pelo continente um estranho consenso no ódio ao “estrangeiro”. A mais bem intencionada pessoa de esquerda está, num instante, a verberar a xenofobia e, no seguinte, a explicar quão horríveis são “os chineses”. O primeiro-ministro italiano Prodi, que tanto lutou pela liberdade de circulação na Europa quando Presidente da Comissão Europeia, no outro dia explicava que “ninguém previu o afluxo maciço de romenos a Itália”. Ninguém previu a não ser quem tivesse percebido que o país europeu com a mais baixa taxa de natalidade teria de “importar” estrangeiros para manter a economia e a sociedade a funcionar.

O problema da natalidade italiana repete-se pelo resto da Europa, com maior ou menor gravidade. A chegada de estrangeiros, legais ou ilegais, continuará, a não ser que uma de duas coisas ocorra: ou se multipliquem as reacções brutais à italiana ou as taxas de natalidade se invertam. A segunda é improvável. Convém prepararmo-nos para a primeira.

Bullfight

Novembro 12, 2007

Depois

Novembro 11, 2007

Antes

Novembro 11, 2007