Outra vez?

(Publicado no jornal Meia-Hora, 15/11/2007) 

Acho que foi o ano passado que o fascismo esteve para regressar a Itália. Não me lembro porquê, mas governava então a direita (Berlusconi, mais precisamente), o que é sempre motivo para a esquerda repetir que o fascismo está de volta. Só que nunca Berlusconi sonhou em fazer algo de vagamente parecido com as mais recentes medidas da esquerda que agora governa a Itália. A história é horrível mas simples: a mulher de um alto oficial da marinha foi violentada e assassinada por um cigano romeno, dos muitos que pululam pelas ruas de Itália e nós também podemos ver por cá. Perante o horror público, o governo decidiu que o problema era dos ciganos romenos em geral, pelo que fez passar no parlamento uma lei permitindo a deportação de estrangeiros “suspeitos” de perturbar a “segurança pública”. Num estado de direito todos são inocentes até prova em contrário. A lei inverte a lógica: os estrangeiros (ciganos romenos) são suspeitos sem sequer conseguirem provar o contrário. É típico da esquerda: vive tão convencida da sua razão que quando toma medidas não pára um segundo.

Diga-se em abono da esquerda que a direita italiana também não se tem portado melhor. O que levanta um problema, não apenas sobre a Itália mas sobre a Europa em geral. Tem-se expandido pelo continente um estranho consenso no ódio ao “estrangeiro”. A mais bem intencionada pessoa de esquerda está, num instante, a verberar a xenofobia e, no seguinte, a explicar quão horríveis são “os chineses”. O primeiro-ministro italiano Prodi, que tanto lutou pela liberdade de circulação na Europa quando Presidente da Comissão Europeia, no outro dia explicava que “ninguém previu o afluxo maciço de romenos a Itália”. Ninguém previu a não ser quem tivesse percebido que o país europeu com a mais baixa taxa de natalidade teria de “importar” estrangeiros para manter a economia e a sociedade a funcionar.

O problema da natalidade italiana repete-se pelo resto da Europa, com maior ou menor gravidade. A chegada de estrangeiros, legais ou ilegais, continuará, a não ser que uma de duas coisas ocorra: ou se multipliquem as reacções brutais à italiana ou as taxas de natalidade se invertam. A segunda é improvável. Convém prepararmo-nos para a primeira.

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