A famosa questão do regime

(Publicado no jornal Meia-Hora, 10/10/2007)

É aquela altura do ano em que o país é acometido de um estranho assomo de republicanismo. Ele é a “ética republicana” para um lado, a “escola republicana” para o outro e o “espírito republicano” ainda para outro. Confesso que não compreendo as expressões, e suspeito que o mesmo acontece com quem as profere. Bem gostava de saber o que é a “ética republicana” ou a “escola republicana”. Talvez tenha que ver com o facto de há noventa e sete anos ter acabado a monarquia em Portugal. Mas a este respeito convém perceber que, na altura, não se tratou apenas de substituir o rei por um presidente. Tratou-se sim de (com isso) implantar uma utopia de emancipação final do Homem (com agá grande). 1910 criou um facto político duradouro: o desaparecimento da monarquia. Mas o resto do programa há muito que se esfumou.

Aos excitados periódicos da República (normalmente de esquerda) vale a pena perguntar: muito francamente, se por hipótese fosse restaurada a monarquia em Portugal, alguém recearia, só por isso, pela liberdade e a democracia? E será que não se lembram que as sociedades preferidas pela esquerda, as nórdicas, são todas (com excepção da Finlândia) monarquias? Mesmo a Inglaterra e a Holanda quase se tornaram socialistas sob a monarquia. Convindo ainda lembrar que os mais horríveis regimes da humanidade (o nazismo e os comunismos soviético e chinês) foram repúblicas. Até em Portugal, dois terços do período republicano foram marcados pela violência e o autoritarismo (a I República e o Estado Novo).

Nada disto quer dizer que valha a pena reinstaurar a monarquia. Por si só, a monarquia também não traria nada de especial. Desde as revoluções liberais dos séculos XVIII e XIX que os monarcas ocidentais ficaram limitados por constituições. As suas velhas capacidades discricionárias foram entregues aos famosos três poderes: o governo, os parlamentos e os juízes. Hoje, onde existem no Ocidente, os reis não passam de símbolos. A querela do regime desapareceu há muito de Portugal. O que, naturalmente, também levanta a questão: então, se desapareceu, porquê comemorar a data? Haverá certamente outros momentos mais importantes para lembrar.

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